sexta-feira, julho 26, 2013

Banguecoque



Após a visita ao Laos mudámos as agulhas para Banguecoque.

O norte da Tailândia havia estado nos meus planos iniciais, juntamente com o Laos. Mas apenas quinze dias de viagem significam escolhas apertadas. Com tanto que há para conhecer da Tailândia, por ora foram escolhidos apenas quatro dias para Banguecoque, na certeza de que se voltaria.

Hoje, depois, desse breve reconhecimento da capital essa certeza é ainda mais forte.

Banguecoque é uma cidade surpreendente. Asiática, mas pacata em muitas ocasiões. Totalmente moderna e civilizada (assuma-se, a civilização vista por uma orientalista, com todos os preconceitos e prejuízos formados ao longo dos tempos). Ou melhor, existem diversas Banguecoques, uma mais antiga, com templos aqui e aqui, e outra mais capitalista, com arranha céus e compras aqui e aqui. Na verdade, as compras estão presentes em todo o lado, seja em lojas ou bancas à volta da Praça Siam, seja em mercados em Banglamphu ou Chatuchak, ou até em mercados flutuantes num qualquer canal de rio.

E, depois, há o sexo. Não, não vou falar disso até ter uma ideia mais real do que é que é o ping-pong show para além daquela explicada com gestos e chupadelas no ar por um dos rapazes que nos impingia o dito espectáculo em Patpong.

quarta-feira, julho 24, 2013

Sabaidee

Já de volta ao trabalho, tento incutir algo de descoberta nos meus alunos. À pergunta onde estiveste de férias este ano, aproveito para lhes quebrar a pausa nos estudos e os fazer ir procurar o Laos no mapa. Todos nunca ouviram falar deste país. Muitos desconfiam que seja mesmo um país. Alguns pensam que estou a confundir com Lagos. Mas, finalmente, há um ou outro que quando se toca no assunto bombas e guerra com os americanos palpita que será um vizinho do Vietname.
O que não suspeitam é que o Laos que conheci é um pedaço de tranquilidade e vida pacata na terra. Cidades feitas aldeias. Pessoas feitas de sabaidee arrastados. Ou seja, bons dias ditos com alma, daqueles que se querem que se prolonguem para o dia inteiro.
Um lacuna apenas. Não bebi a famosa Beerlao, a cerveja local que, diz quem sabe, é das melhores da Ásia. É nestas alturas que gostava de gostar de beber, saborear uma cervejinha à beira do Mekong. Fiquei-me pelas limonadas, o que até não está nada mal.

sexta-feira, julho 19, 2013

Os Monges no Laos











Pakse


Pakse foi um erro de casting na forma como organizei o tempo aqui. Apenas 2 dias. Ou demasiados 2 dias. O objectivo era visitar o Wat Phu Champasak, um antigo complexo religioso khmer. Um dia ocupado. O outro ficava curto para visitar quer o Bolaven Plateau, terra do café, com as suas quedas de água e trilhos para caminhadas, quer Shi Phan Don, a terra das 4000 ilhas, arquipélago às portas do Camboja. Não visitámos nem um nem outro. Limitámo-nos ao Wat Phu e a Don Kho.


O Wat Phu Champasak fica a quase 50 kms de Pakse. Este antigo lugar khmer, do qual se diz que partia um caminho para Angkor, é património da humanidade. Há que reconhecer que para quem conhece Angkor, este sítio é apenas uma migalha.
 


 
 Não obstante, a sua localização é fabulosa. Do topo do sítio, onde encontramos o templo principal do santuário, a vista tudo alcança. Campos de um verde imenso de um lado, arrozais do outro e bem abaixo de nós o complexo do Wat Phu com os seus barays, os lagos cerimoniais, imponentes a antecedem o caminho processional. Crê-se que este seja um local de culto desde o século V, o que diz bem do bom gosto já dos nossos antepassados em escolherem o terreno. Ao longo dos séculos foi sofrendo diversas alterações até se chegar ao que vimos hoje.



Os dois pavilhões que antecedem o templo principal possuem claramente características que encontramos nos edifícios de Angkor, mas é no templo principal, depois de uma escadaria interminável protegida por árvores portentosas, que damos de caras com esculturas belíssimas cravadas na pedra. Na rochas encontramos ainda esculturas de crocodilo e elefante.


 
Mais perto de Pakse, e na direcção contrária de Champasak, fica Ban Saphai, donde se atravessa de barco até à ilha de Don Kho. Este lugarejo de cerca de 300 habitantes, onde se pode experimentar um homestay, chegou incrivelmente a ser a capital do sul do Laos quando os franceses chegaram. É difícil encontrar vestígios de centro de poder neste local. Percorrendo os seus caminhos vamos vendo uma vida pacata, as senhoras a tecer nas suas casas e os senhores a dedicarem-se ao arranjo dos motores dos barcos. As crianças brincam. Os búfalos idem. Infelizmente os arrozais não estavam operacionais aqui. Interessante como o clima pode mudar tanto de um local próximo para o outro. De Pakse a Ban Saphai vamos passando por diversos arrozais. Quando se sobrevoa Pakse - e até Savanaketh - o mesmo cenário. Mas a ilha de Don Kho lá terá um microclima qualquer e arrozais naquele dia, nicles.
 
 
Quanto a Pakse propriamente dita, nada a registar a não ser o de que é um centro de passagem rumo a outros territórios. A cidade, uma das maiores do Laos, não possui edifícios distintos, nem arruamentos dignos de seu nome. Depois das 10 da noite é quase impossível arranjar um tuc tuc de volta para o hotel e o que nos arranjaram - uma mota com atrelado - cobrou 10 euros pela viagem quando horas antes outro havia cobrado 2. É esta a nossa história de Pakse.

Vientiane


De Vang Vieng para Vientiane seguimos num autocarro local bem cedinho. O dito sai da estação mas vai apanhando passageiros no caminho até encher. Encher de objectos, não de pessoas. Aqui tudo se transporta (não só na bagageira), e as pessoas são apenas um detalhe. Dividimos o espaço com sacas, cadeiras, ventoinhas, placars publicitários, enfim, tudo o que for transportável.


Vientiane é provavelmente a capital mais calma da Ásia.

Nada a ver com Phom Phen. Saigão ou Hanói, então, parecem outro planeta.

Podemos caminhar nas ruas sem ouvir o constante buzinar de carros e motas. Podemos até andar de bicicleta juntamente com os carros. Mais. Eles até nos cedem passagem.


A cidade começou a ser habitada já no século IX. Tal como Luang Prabang, alternou períodos de autonomia com outros de domínio por parte dos siameses, dos vietnamitas e dos burmeses. Quando os franceses chegaram, em meados do século XIX, e a tomaram como protectorado, também não eram uma das suas prioridades na sua Indochina. Mais uma vez, não abundam os exemplos de arquitectura colonial, apesar de se ver um aqui ou outro ali. O regime comunista também ainda não conseguiu deixar a sua marca. A frente do Mekong está tristemente voltada ao abandono, com edifícios em ruínas, mas existe um mamarracho de dezenas de andares, lugar de um hotel. À sua volta nada. Mas projectos megalómanos são anunciados em longos tapumes. Está bem que a China tem ajudado, mas duvido que daqui a dez anos os tapumes a anunciar os world trade centers a que qualquer cidade tem direito tenham saído do sítio.



Gostei do edifício do Palácio Presidencial e gostei da vista do alto do Patuxai, género de Arco do Triunfo, que prova que a cidade terá sido pensada, com longas e largas avenidas ao estilo dos boulevards franceses.
 
 
Interessantíssima a visita ao Cope, centro de reabilitação de mutilados, cujo centro de visitas nos dá a conhecer a história de bombardeamentos no Laos e consequências físicas para milhares de humanos.

No mais é agradável caminhar pelas ruas principais paralelas, Th Setthathirath e Th Samsenrthai, e suas perpendiculares.

Restam os incontáveis e omnipresentes marcos religiosos.



O mais afastado Pha That Luang é uma stupa de 45 metros de altura e representa o monumento nacional mais importante do Laos, símbolo quer do budismo quer da soberania do Laos.

Já bem no centro da cidade ficam o Wat Si Saket e Haw Pha Kaeo.



A cerca de 24 kms fica o Xieng Khuan, o Parque Buda. É um exemplo bem kitsch da criação de padre / yogi / shaman que mesclou a filosofia, mitologia e iconografia budista e hindu. Resultado? Uma série de esculturas para todos os gostos, incluindo um imenso Buda reclinado. Pese embora toda esta fantasia exagerada, merece uma visita.

Vang Vieng

 
A viagem de Luang Prabang para Vang Vieng dá-nos a realidade do Laos em pleno:
- a falta de infraestruturas, que faz com que 200 kms sejam percorridos em 7 horas de autocarro;
- a beleza e a imensidão da floresta e das montanhas.

Pese embora o tempo gasto, as curvas e mais curvas, as constantes paragens do motorista para xixi, pôr o filho a vomitar, fazer as compras da semana para a mulher, a viagem é agradável e obrigatória.



Vang Vieng seria um nada na paisagem se não tivesse ela própria uma paisagem indizível. É um daqueles casos de localização certeira, não apenas de meio de caminho entre Luang Prabang e Vientiane, mas sobretudo de vilarejo à beira de rio cercado de montanhas de calcário. Acordar com o sol a nascer, cortinas do quarto de hotel abertas, e dar de caras com aquele cenário é tudo. Não sei se naquele momento o esfregar dos olhos era para acordar realmente ou metaforicamente. Uma paisagem de sonho. E a paisagem que seria tudo para uns, para outros não lhes chega e transformaram o vilarejo em local de festas, copos e drogas. Daí a queda a que Vang Vieng assiste hoje.



Ainda, assim, vale bem a pena passar uma noite aqui e, sobretudo, aqui acordar. Depois, e esquecendo as ruas cheias de bares e restaurantes sem graça que podiam estar aqui ou no Algarve, sair para um passeio de caiaque ou tubing no Nam Song. Optámos pelo caiaque e foram cerca de 8 quilómetros sem necessidade de remar, porque a corrente do rio nos empurra, totalmente dedicados à felicidade de contemplar o recorte das montanhas verdejantes.


Ainda, existem algumas caves que merecem uma visita.


A Tham Phu Kham é também conhecida pela Lagoa Azul, embora as suas águas fossem mais assim para o verde, e aqui é possível fazer o salto de Tarzan e cair na água. No topo da dita lagoa fica a cave, para onde se tem de subir um pouco, num caminho totalmente realizado imersos na vegetação luxuriante. A cave é enorme e imagino os aventureiros das festas a caminharem sem destino, escuridão adentro, e não encontrarem o caminho de volta. Bem, as possibilidades de isso acontecer a qualquer um sóbrio são reais, por isso, lanterna é obrigatória e cautela também.


Outra cave, a mais perto do centro do vilarejo, é a Tham Jang. Diz que tem um boa vista. Diz, porque como dois elementos do trio adormeceram só o terceiro é que teve direito a subir até lá. Na verdade todos nós chegamos aos seus pés, mas fora do horário. As preces para nos deixarem ainda entrar foram em vão. Mas assim que os funcionários se foram embora, a manita, com a cumplicidade de dois taiwaneses, pulou o portão e foi até lá confirmar o cenário. A mim restou-me o ambiente rasteiro, bem bonito por sinal, emoldurado por uma ponte das antigas.

Arredores de Luang Prabang

Nos arrabaldes de Luang Prabang há alguns locais que devem ser visitados.



As caves valem apenas pelo passeio no Mekong.

Mas existem ainda umas quedas de água bem bonitas.


Até Tat Kuang Si, a uma vintena de quilómetros de Luang Prabang, a viagem é agradável. A caminho parámos numa pequena aldeia onde os seus habitantes se dividem entre aqueles que estão preparados para nos receber impingindo alguns dos seus artigos e aqueles outros que levam a sua vida pacata quotidiana.
E a caminho parámos ainda para comprar abacaxis numa das omnipresentes bancas. Ficámos desconfiados de que o preço é duplo, um para turista outro para local, mas o delicioso sabor do abacaxi não é quantificável.



As cascatas da Tat Kuang Si são belíssimas. A principal cai de bem mais de 15 metros e em diversos patamares vão se formando umas lagoas pequeninas e pacatas ideais para uma banhoca. A cor da água dá um tom ainda mais paradisíaco ao cenário.


A outra cascata, mais perto de Luang Prabang, a Tat Sae não tinham tanta água, mas mesmo assim revelaram-se bonitas. Antes de se chegar até elas há que atravessar o rio numa curta jornada de barco. Aí chegados, esta cascata divide o espaço com um campo de elefantes. Laos, aliás, significa a "terra de um milhão de elefantes". Pela primeira vez andámos de elefante, acompanhadas pelo guia. Mas depois fomos tomar banho com o elefante sozinhas, cavalgando directamente no seu lombo, naquele que foi um dos momentos mais divertidos da viagem. Os pruridos de higiene e receio de apanhar doenças exóticas ficaram completamente esquecidos e aceitamos de bom grado que o elefante libertasse os seus intestinos logo à entrada na água da lagoa por onde entramos ao seu lombo e que, estávamos certas, dai rapidamente cairíamos. A missão passou, então, a ser não não cair, mas cair de boca fechada.