domingo, outubro 07, 2007

12 de Setembro – Potosi

A noite foi péssima para as manas. Foi a nossa 2.ª noite na Bolívia. O quarto do hotel estava como o ar condicionado muito quente (faz frio por aqui, sobretudo quando o sol se vai). Depois de me ter deitado às 21:30, acordei com dores de cabeça, ou melhor, com a sensação de que mundo rodava rápido demais sobre a minha cabeça, e insónias foi o que me tocou durante o resto da noite. Como a Sofia sentia exactamente o mesmo, a conclusão foi óbvia: o mal da altitude atacou-nos (relembro que Potosi está acima dos 4000m de altitude) .
Depois de um mate de coca logo pela manhãzinha começámos a sentirmo-nos bem melhor e prontas para encarar um dia inteiro de passeios por Potosi, iniciado por uma visita às minas do Cerro Rico.
Como é costume por entre aqueles que vão ver como os mineiros ainda hoje trabalham em condições que pouco mudaram desde há séculos passados, a primeira paragem aconteceu no mercado da mina para comprar alguns mantimentos para aqueles que iríamos visitar a trabalhar. Umas bebidas, folhas de coca e dinamite.



Vestimos umas calças e um blusão e partimos, assim, para os 3 níveis das minas San Miguel e Poderosa acompanhadas do nosso guia Jhonny (é mesmo assim que se escreve o nome do rapaz, uma abolivianização de um nome americano). Na primeira mina conhecemos Don Julian, um mineiro de 1.ª classe que trabalhava isolado furando pacientemente as paredes da mina, cm a cm, com a ajuda de um martelo, para depois dinamitar o espaço. Os mineiros de 1.ª classe são aqueles que, dada a sua maior experiência, podem usar a dinamite. Don Julian trabalha na mina há 22 anos e, curiosamente, fazia neste preciso dia 51 anos.



Estanho, principalmente, chumbo, zinco e alguma, pouca, prata. São os minérios extraídos do Cerro Rico.
Não ficámos muito mais do que uma hora dentro da mina mas à noite, e já após o banho tomado, ainda sentíamos entranhado na nossa pele o cheiro do estanho. Apesar da visita, não faço a mais pequena ideia da violência que é trabalhar nas minas.



Um bom livro para ter alguma percepção, de um ponto de vista histórico, da vida difícil dos mineiros (e, em geral, do povo da América Latina) é “As Veias Abertas da América Latina”, do uruguaio Eduardo Galeano. Uma visão absolutamente esquerdista, demasiado esquerdista, diria mesmo, até para quem, como eu, se considera politicamente aí situada. Os indígenas bolivianos começaram por ser explorados pelos espanhóis, depois os ingleses também ganharam algum (muito) às suas custas, depois os americanos e, claro, também alguns caciques e oligarcas seus conterrâneos. Como Simon Patiño, o “Barão do Estanho”, que descobriu uma mina perto de Oruro que veio a possibilitar a sua escandalosa fortuna, a qual aquando da sua morte, na década de 40 do século XX, era um das 5 maiores do mundo. A curiosidade, para nós portugueses, é que o seu filho e herdeiro viria a comprar uns terrenos no Estoril para aí instalar o seu palácio, no que hoje conhecemos por Quinta do Patiño (o lugar onde os nossos magnatas hoje têm “casa”).

Voltando à triste sina dos mineiros, para aguentarem o trabalho de muitas horas seguidas dentro da mina, a altitudes mais do que muito elevadas e num ambiente bastante nocivo, cheio de químicos e gases, propicio ao desenvolvimento de todos os problemas respiratórios possíveis e imaginários, não lhes resta muito mais soluções senão mascar umas folhas de coca pelo dia fora. E a utilização da coca para efeitos terapêuticos e como forma de superar o cansaço em trabalhos duríssimos como este e combater a fome é bastante tolerada por cá. Antes da chegada de Evo Morales ao poder, o anterior governo havia cedido às pressões americanas no que respeita a este costume relativamente generalizado pelo país decretando a proibição da cultura da coca. Note-se que isto é bem diferente da produção de cocaína. Hoje, com o cocalero Evo na presidência, tudo voltou a seguir as tradições ancestrais já dos tempos dos incas.



Os mineiros são dados a algumas superstições e dentro da mina esperam protecção daquele a quem chamam “Tio”, sem se atreverem directamente a designá-lo por “diabo”, daí que seja costume efectuar-lhe algumas oferendas, como folhas de coca e cigarros, para que lhes traga um pouco da sorte que tanto necessitam.
Uma nota final relativamente à vida das minas. Como se não bastasse toda a dureza que se tentou descrever, de lembrar ainda que os trabalhadores estão dentro da terra – literalmente. Tivemos uma experienciazinha daquelas que se impingem ao turista que serve para mostrar algum do terror que pode ser vivido numa mina: os mineiros vão acompanhados de lanternas mas, imagine-se, há a possibilidade bem real de ficarem sem o único foco de luz que os iluminará pelas galerias furadas na terra. Um breu intenso os esperará, durante dias se for preciso, até que encontrem uma saída sem caírem em algum buraco ou até que alguém os encontre. Vem isto a propósito dos 5 metros que experimentámos andar sem luz pela mina. Mais uma vez, e depois de esta visita, não consigo sentir a violência que é trabalhar num local destes.

Finda a visita às minas, depois do almoço o céu começou a ficar escuríssimo, com umas nuvens cerradíssimas. E sem sol, já se sabe, o frio é certo. Veio o frio e, pensávamos, viria a chuva. Acertámos, mas vieram também umas pedrinhas de gelo. Uma das coisas que mais atrapalha quando viajamos é, precisamente o tempo fechado com a consequência do colorido triste que traz para as cidades, seus edifícios e suas paisagens, que nem na memória nem nas fotos é passível de redenção.
Assim, a opção mais imediata é visitar museus ou outros espaços fechados (por sorte, por aqui não existem shopping centers).



Fomos visitar o Convento de Santa Teresa, onde 6 carmelitas resistem às tradições (3 bolivianas e 3 brasileiras, a mais velha com cinquenta e poucos anos), ainda que vivam hoje num regime incomparavelmente mais livre do que aquele que viveram as carmelitas que a partir de finais do século XVII para lá entravam com 15 anos, depois das suas riquíssimas famílias pagarem um mais do que generoso dote de 2000 moedas de ouro. A visita – deveras interessante – pelas gélidas salas do Convento foi guiada pela simpática Gris – que fez questão de reforçar, por piada, que o seu nome era como o tempo que se fazia sentir naquela tarde.


Após estes 3 dias por terras do Altiplano Boliviano, entre Sucre e Potosi, dois factos curiosos por nós observados parecem ser, na verdade, um costume por aqui.
Um primeiro, os homens fazem chichi em qualquer lado da rua. Não é necessário sequer uma esquina ou a traseira de um carro. Inesquecível a figura de um velhote a urinar sob os arcos perto da Igreja de São Francisco em Sucre, com uma multidão à sua volta (certamente que o fenómeno é explicado pela falta de saneamento básico generalizado).
Um segundo, os carros que circulam pelas ruas destas cidades com caracteres japoneses bem marcados. Este também é fácil de explicar: parece que os bolivianos importaram carrinhas em 2.ª mão do Japão e como não fazem a mínima ideia do que é que aquelas palavras querem dizer e, por outro lado, acham que esteticamente até fica bem, optaram por não as apagar e seguir adiante. Mas não há nada que enganar. Tirando as letrinhas, isto é América Latina profunda.

quarta-feira, outubro 03, 2007

Potosi, a Capital das Alturas

Potosi tem cerca de 150 mil habitantes que fazem a sua vida a 4070m acima do mar. Duro, muito duro. Mais duro ainda se pensarmos que a cidade – a mais alta do mundo – vem assistindo desde o século XVI à árdua vida dos mineiros nos cerros nas suas proximidades.
O mais histórico é o Cerro Rico, descoberto em 1544 por Diego Huallpa, um inca que trabalhava para os espanhóis, apesar de lendas mais antigas nos contarem que outros incas já o haviam descoberto mas estavam a guardar o seu precioso metal para outros. Seria para os espanhóis?
O certo é que estes há muito que buscavam desesperadamente o el dorado no outro lado do Atlântico. Não lhes tocou o ouro mas tocou-lhes um cerro carregadinho de prata. Tanta prata foi de lá extraída que por graça houve quem afirmasse que chegaria para que os espanhóis pudessem ter construído uma ponte a ligar Potosi ao país dos recentes invasores.
E tanto foi o esplendor e o reconhecimento da cidade de Potosi, fundada em 1545 com o nome de Vila Imperial de Carlos V, um ano imediatamente após a descoberta da riqueza do Cerro Rico, e logo tornada a maior das Américas, com mais de 200 mil habitantes, tão grande como Londres na sua época, que Miguel de Cervantes viria, a propósito da sua riqueza, a criar um dito que ficou para a posteridade: “vale um potosi”, como selo de garantia de algo valioso – como a cidade de Potosi.
Com toda a prata que por lá circulava, para além da extensão e súbito crescimento da cidade, os espanhóis foram construindo inúmeras igrejas que ainda hoje se mantém em pé e bem preservadas, tal como, aliás, uma interessante arquitectura colonial, com edifícios com balcões pitorescos.
No entanto, ao lado de tanta riqueza conviveu a tragédia. Efectivamente, para se alcançar tanto esplendor foram, tristemente, sacrificadas muitas vida num regime esclavagista implacável. Milhares de indígenas foram explorados dramaticamente, tal como outros milhares de escravos que foram trazidos de África. A maioria pereceu pelas violentas condições de trabalho, onde os trabalhadores chegavam a ficar meses debaixo de terra, sem ver qualquer raio de luz, trabalhando sem parar. Outros, dramaticamente, acabavam por ter vidas dolorosas vergadas ás doenças respiratórias consequentes do ambiente da mina.
No século XIX a actividade mineira e o esgotamento das minas trouxeram o ocaso de Potosi. Hoje, no entanto, prossegue a exploração dos minérios no Cerro Rico, estanho e zinco, principalmente, pouca prata já existindo. Os trabalhadores, alguns com 11 anos, esses, não perdem a esperança de num golpe de sorte ganharem a sua vida.
Em 1987 a Unesco inscreveu Potosi na sua lista do património da humanidade, em reconhecimento de toda a sua história feita de riqueza e glória, sem dúvida, mas também de muito sacrifício de vidas vividas em condições desumanas.

11 de Setembro – Sucre – Potosi

Como tinha referido no post do dia anterior, no turismo de Sucre tinham-nos informado que 2.ª feira era dia de os museus se encontrarem fechados. Surpresa: hoje, terça-feira, a Catedral também estava fechada e assim iria continuar até ao final de umas obras que, pelos vistos, eram desconhecidas do turismo, instalado a uns 300m de distância. E o Convento San Felipe Neri só abriria a visitas na parte da tarde, pois de manhã funcionava apenas como colégio. Para compor o ramalhete, a Casa da Liberdade fechava às 12:30 e só lá chegámos precisamente a essa hora. Quanto a estes dois últimos edifícios que queríamos visitar, o detalhe é que à tarde partiríamos de Sucre rumo a Potosi. Ou seja, perdemos alguns dos ex-libris da cidade.


De manhã decidimo-nos por caminhar por ruas mais distantes do centro, sempre a subir até à Recoleta, lá do alto, onde se obtém uma boa panorâmica da cidade. Pela primeira vez sentimos que uma pequena inclinação basta para nos deixar mais ofegantes do que o costume na nossa vida a 0 metros ao nível do mar.
Pelo meio, antes de chegar à Recoleta (onde, curiosamente, o Museu com o mesmo nome e o Museu dos Niños também se encontravam fechados), acertámos por uma vez: visitámos o Museu de Arte Indígena, muito bom na sua mostra de, entre outros, têxteis de Tarabuco e de Jaqu´a, representando figuras que ainda hoje e muito amiúde se vêem pelas cidades da Bolívia.
Para finalizar a nossa estadia na capital judicial, mais um almoço num restaurante com um páteo acolhedor, confortável e bonito, ao lado de muitos sucrenhos, a preços estupidamente baratos: 1,5 Euros por pessoa para o menu do dia (sopa, prato, sobremesa e bebida).


Iniciámos, então, a viagem de Sucre para Potosi, 3h 30m num autocarro local apelidado de “bom” (na verdade, nem bom nem mau). Éramos as únicas não indígenas e daí que fossemos das poucas preocupadas em não adormecer para não perdermos pitada da paisagem desoladora (positivamente) do Altiplano. Pouquíssimas povoações entre as duas cidades mas, estranhamente, encontrámos umas quantas pessoas paradas ou caminhando no trajecto. Enquanto o autocarro ia fazendo umas paragens para apanhar mais clientes, os vendedores de tudo – gelados, bebidas, pão, empanadas, frango frito a qualquer hora do dia – aproveitavam e entravam também para tentar fazer negócio.

A chegada a Potosi é verdadeiramente estranha. Mais do que em Sucre, para nós tudo é novo. Um caos de vida. As estradas, as casas, as pessoas, todo o movimento que se vê por aqui está muito distante da nossa realidade.
Antes do anoitecer, que nesta esta altura do ano por aqui acontece por volta das 18:30, tivemos ainda tempo para um breve passeio pelo centro de Potosi. Mais uma vez, e tal como em Sucre, as ruas estão plenas de gente.
Aproveitámos os últimos minutos para uma subida à Torre da Igreja dos Jesuítas e com o cair do sol tivemos a sorte de um visual e cores diferentes sobre a cidade e o Cerro Rico, sempre omnipresente. Aqui está instalado a oficina do turismo e fomos “guiadas” por uma simpática funcionária que nos fez as primeiras apresentações à cidade e, de alguma forma, também à realidade social do país. Apesar da crise geral que se vive, com a falta de emprego para os recém licenciados e com a debandada de muitos bolivianos do país (principalmente para os Estados Unidos, Argentina e Espanha), o minério está em alta e, por isso, os mineiros vivem um bom momento, chegando a ganhar cerca de 14 Euros por dia. Óptimo se comparado com os 4
Euros diários ganho pela maioria dos bolivianos (quando o ganham).

segunda-feira, outubro 01, 2007

10 de Setembro – Sucre

A viagem foi, como não podia deixar de ser, uma seca insuportável. Quatro horas de espera no aeroporto de Miami, depois de 9 horas dentro de um avião da Iberia com lotação a 1/5 (o mesmo é dizer uma fila para cada passageiro se deitar à vontadinha), não faziam imaginar mais 8 horas até La Paz num outro avião com cadeiras estreitíssimas, muito menos que Sofia viajasse espremida no meio de duas gordas. Para mim tanto me faz a companhia e as características do avião, é sempre uma grande maçada e desconforto. Ainda para mais, ultimamente tenho sofrido um súbito e inexplicável medo de voar perto das nuvens. Claro que para isso não ajudou que a descida para o aeroporto de Sucre ficasse num vale rodeado de uma montanha inacreditavelmente próxima, numa intimidade que o cansaço me levava a não desejar, acompanhada de uma turbulência assustadora.
Nos breves momentos de espera em El Alto (La Paz) tinha saído um pouco à rua e pude sentir os 10 graus de temperatura e os montes nevados à volta. Agora, em Sucre, faziam “apenas” 27 graus, com um sol fortíssimo, que se sente ainda mais por estarmos a 2790m de altitude.



Chegámos ainda antes do almoço e decidimo-nos por um pequeno reconhecimento pelas ruas da cidade. Praças cheias de gente, ruas cheias de gente, vida de cidade. O mercado cheio de cores. Respeitosamente, pedimos para tirar uma foto a uma das senhoras da fruta. Resposta: 5 dólares. Um aviso para o que se seguiria (mais cobranças, virar de cara à mínima sensação da máquina fotográfica).
Segunda-feira era dia de os museus se encontrarem fechados e havia alguns que gostaríamos de visitar, como a Casa da Liberdade e o Convento de San Felipe Neri. Teria de ficar para amanhã.



À frente do Convento Neri, a Igreja de la Merced, que por fora não será a eleita entre as inúmeras igrejas da cidade, tem, no entanto, uma vista fabulosa de toda a cidade de Sucre e seus arredores. Daqui se constata bem a geografia característica da cidade, encravada num vale, o traçado direito das suas ruas, os edifícios coloniais ainda presentes e, principalmente, o branco do casario contrastando com o ocre dos telhados, as cores dominantes de Sucre. O terraço da Igreja é, só por si, merecedor de uma visita.



Original, com montinhos carregados de telha a adorná-lo. Aqui podemos relaxar, deitarmo-nos um pouco.
Bem precisava. Por esta altura a tarde ainda não ia muito avançada mas sentia que não podia mais. Apesar de a altitude não ser assim tão exagerada, talvez a sua aliança com a duração da viagem de avião e o jet-lag me tenham deixado KO, com uma das piores dores de cabeça da minha vida. Resultado: cama às 19:00h, sem jantar nem nada.
A Sofia contou o resto: à noite, como de dia, as ruas enchem-se da mesma multidão, um corrupio para lá e para cá. O jantar foi ainda mais barato que o almoço e tivemos a primeira percepção de que tal como pudéramos escolher o melhor hotel da cidade – o super agradável Parador Santa Maria la Real, com os seus páteos e quartos coloniais – iríamos poder escolher qualquer restaurante. Refeições para duas pessoas a 5 euros num local da moda? Só mesmo na Bolívia.


Sucre é a capital constitucional e judicial da Bolívia, enquanto que La Paz é a capital administrativa do país. Se isso na prática tem alguns resultados positivos ou não, não faço a mínima ideia. O que sei é que por Sucre se vêem mensagens em tarjas em muitos edifícios com a inscrição “Sucre plena” e por La Paz veria mais tarde outras inscrições contrarias exigindo a manutenção dos poderes naquela que nós temos ideia ser a cidade mais importante da Bolívia.



Disputas de poder à parte, Sucre tem cerca de 250 mil habitantes e historicamente tem um valor sentimental para os bolivianos, uma vez que foi aqui que a independência da Bolívia foi proclamada em 1825, na Casa da Liberdade. Bolívia tomou o nome de Simon Bolívar, o grande libertador da América do Sul, primeiro presidente do país, e Sucre tomou o nome de António José de Sucre, general também decisivo na constituição do novo país e seu segundo presidente.
Em 1991 a Unesco inscreveu Sucre na lista do património mundial e muitos defendem que esta é a cidade mais bonita da Bolívia. O que é certo é que se vê, efectivamente, que foram realizados esforços para a manter cuidada e bem conservada e os páteos dos seus edifícios (cada um deles tem, parece que quase obrigatoriamente, um páteo) são encantadores e convidam a que, da rua, não se deixe de lhes dar uma espreitadela.
Sucre é, assim, um bom exemplo de conservação de uma cidade colonial na América do Sul, num esforço muito assinalável num país que apesar de pretender manter bem viva a sua história, tradições e cultura, terá, todavia, escolhas bem difíceis ao traçar as suas prioridades.

sábado, setembro 29, 2007

Bolívia

A Bolívia é um país com cerca de 1 milhão de km2, mais de 10 vezes do que o território de Portugal, e cerca de 9 milhões de habitantes (densidade de 8,4 habitantes por km2), 1 milhão menos que Portugal (densidade de 114 habitantes por km2). Segundo o Wikipedia, baseado em dados das Nações Unidas, a Bolívia é o 210º com menos densidade populacional numa lista de 230 países (Portugal ocupa o 87º lugar na dita lista).

Sabidos estes dados à partida, que esperar então de uma visita àquele que é considerado o país mais pobre da América do Sul?
População concentrada nas grandes cidades e interior escassamente povoado?
Também. Mas não tanto como o que vimos. De Sucre – capital constitucional e judicial da Bolívia – a Potosi – a mais populosa cidade do mundo no século XVI e ainda hoje com cerca de 150 mil habitantes – são 164km de “estrada” sem que se passe por qualquer povoação. De Potosi a Uyuni – um ponto importante de ligação de comboio não só para La Paz como também para Argentina e Chile – o que varia é o agravar das péssimas condições da “estrada” nos seus 269Km.
Com uma enorme debandada dos campesinos para La Paz e El Alto e uma falta de investimento público nas acessibilidades, outro cenário não seria de esperar.

Assim, num país longínquo e grande, a maior parte dos nossos 17 dias fora de Portugal foi gasta em viagens, em deslocações quase intermináveis de um lado para o outro. A começar pelas 24 horas de voos e aeroportos da ida e as 24 horas de voos e aeroportos da volta (num itinerário a roçar o absurdo: Lisboa – Madrid – Miami – La Paz – Iquique – Santiago – Madrid – Lisboa). E seguido das 3 horas de Sucre – Potosi; das 8 horas de Potosi – Uyuni; das 11 horas de Uyuni – La Paz; das 3 horas e meia de La Paz – Copacabana; das 3 horas de Copacaba – Puno (Peru); das 8 horas de Puno a La Paz; e, por fim, das 3 horas de Coroico a La Paz; isto sem contar com os muito aceleradores km e horas de jipe pelo salar de Uyuni e Altiplano boliviano.

Ufa!

Até parece que restou pouco tempo para enfrentar o mal da altitude. Mas qual quê. Depois de Sucre, o primeiro destino, a 2790m, foi quase sempre a raiar os 4000m ou até mesmo a excede-los: Potosi a 4070m; seguida de uma pequena descida ao salar de Uyuni a 3653m, mas com os seus arredores pelos 4278m da Laguna Colorada e 4400 da Laguna Verde; Titicaca a 3800m; La Paz a 3660; Chakaltaya a 5395m; até descermos loucamente de bicicleta os 64km que separam La Cumbre (La Paz) de Coroico – de ofegantes 4700m a mansos 1750m de altitude.

Tudo superlativo num país que se gaba de ter o aeroporto mais alto do mundo (El Alto, onde se tem por piada que os aviões, para aterrarem ali, têm de subir), a capital mais alta do mundo (La Paz), a cidade mais alta do mundo (Potosi), o lago navegável comercialmente mais alto do mundo (Titicaca), o salar mais extenso do mundo (Uyuni).
E acrescento, arriscando, tem ainda a maior população indígena, em percentagem, dos países do continente americano.





O que surpreende quanto à cultura da sua população é que aquelas fotografias que nos acostumámos a ver das pessoas vestidas de maneira pitoresca, para os nossos padrões, correspondem mesmo à realidade e não tão poucas vezes assim. As “cholitas” (mulheres que nas grandes cidades mantém os costumes do interior) caminham pelas pequenas e grandes cidades, falando ayamara ou quechua, com as suas saias típicas e chapéus altos, trancinhas a caírem sobre as costas onde carregam às cavalitas um pano colorido que tanto pode trazer os seus haveres ou, mais provavelmente, o seu filho bem acomodadinho.
Nunca uma fotografia terá tido tanto poder na caracterização de uma maioria que nem sempre representa a sociedade boliviana. E, não só por isso, nunca um país que visito estará ainda tão imaculado na sua natureza e alguns costumes e persiste, em grande parte, intocado pelo Homem.
Eis, nos próximos posts, um diário de uma caminhada pela Bolívia, com os Andes sempre por ali.

terça-feira, setembro 04, 2007

Costa Vicentina - Sagres

Este é o meu cantinho de eleição em Portugal continental.
Onde…
…vale o esforço de acordar cedo para ver este nascer do sol
…vejo os aficionados do vento a riparem no Martinhal

…há areais sem fim quase só para mim
ainda por cima de uma beleza única
…toda a família pode surfar
seja no Tonel,
na Cordoama,
na Ponta Ruiva
ou no Amado

…posso aproveitar a tranquilidade das águas da Mareta
…à noite como as maravilhas que este senhor pescou
…posso estar no lugar donde saíram os nossos descobridores
…observo as íngremes falésias do Cabo de S. Vicente
…fujo do vento no Beliche
…é fácil ser feliz.

Um Banco no Cais



Em semana de Red Bull Air Race no Porto, em que ambas as margens do Douro ficaram atulhadas com 600 mil pessoas a olhar para o céu, não me sai da imagem o casalinho que uma semana antes pacatamente contemplava a tranquilidade das águas do rio com a Ribeira e os Clérigos ali bem encavalitados.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Pelo Gerês - Espigueiros

Já na Serra do Soajo ficam as povoações com o mesmo nome – Soajo (concelho de Arcos de Valdevez) – e Lindoso (concelho de Ponte da Barca), esta última na fronteira com a Serra Amarela.
Ainda que Soajo tenha diversas casas de pedra recuperadas e uma agradável praça principal onde se situa o seu Pelourinho (para além do seu passado histórico de sempre haver reconhecido o rei de Portugal como seu líder, ao contrário de outras localidades que preferiam a liderança espanhola), e Lindoso possua igualmente como ponto alto o seu Castelo, ambas as povoações ganham grande relevo pela sua “colecção” de espigueiros.



Os espigueiros predominam sobretudo no norte de Portugal e servem para secar o milho, protegendo-o de um duplo perigo: intempéries e roedores. Daí o seu desenho rectangular alongado com fendas laterais, para arejar o milho (que é colhido no Outono e secado no Inverno), numa estrutura de pedra elevada para evitar os ratinhos. No topo possuem, normalmente, uma cruz para que o divino possa proteger os cereais. Por tudo isso, a mim fazem-me lembrar os túmulos que os romanos utilizavam para proteger os seus mortos.
Independentemente de algumas moradias disporem dos seus próprios espigueiros, a maioria destes exemplares estão instalados nas eiras comunitárias, reforçando o intenso espírito de comunidade muito presente nesta zona do país (atente-se, a este propósito, o forno comunitário de Tourém, na parte trasmontana do Gerês).



No caso do Lindoso são cerca de 50, bem junto ao Castelo, datados dos séculos XVII e XVIII, muitos deles ainda utilizados pelos seus habitantes.


No Soajo a eira comunitária tem 24 espigueiros, o mais antigo datado de 1782.



O certo é que, tanto no Soajo como no Lindoso, os espigueiros encontram-se pitorescamente dispostos, daqui resultando um autêntico museu destas formas.

Pelo Gerês - Júnias

A povoação de Pitões das Júnias pertence, tal como a Ponte da Misarela, ao concelho de Montalegre. Aqui e ali possui alguns edifícios bem conservados mas o destaque vai para a sua localização isolada. Olha-se por todo os lados e a rodeá-la só encontramos a paisagem monotonamente encantadora da Serra do Gerês, mais concretamente das terras do Barroso.




Mais isolado ainda e quase que escondido fica o Mosteiro de Santa Maria das Júnias. Este é um local bem improvável para darmos de caras com tal monumento, mas é isso que acontece se seguirmos (de carro) uns 2 km além do cemitério da povoação. Este mosteiro beneditino, talvez pelo local distante e ermo em que foi implantado, conserva ainda a sua configuração e ainda que possamos desejar que estivesse melhor cuidado e recuperado, não deixa de ser uma verdadeira surpresa que tenha chegado até aos nossos dias com as paredes e telhado da igreja intactos e que as ruínas adjacentes nos dêem uma leitura do que terão sido os seus claustros e serviços de apoio. Estima-se que 1147 tenha sido a data da fundação deste mosteiro, bem juntinho ao Ribeiro do Campesinho.



Aliado à vertente histórico-cultural, vale igualmente a pena caminhar pelas imediações do Mosteiro, num percurso fácil mas a espaços cansativo, até ao miradouro da Cascata de Pitões. A água que jorra em abundância pelas paredes da montanha compensa os inúmeros degraus de um recente passadiço em madeira que nos guia até ao local.

Pelo Gerês - A Ponte

Já no concelho de Montalegre, ou seja, na parte trasmontana do Parque, e passando Sidrós, encontramos a Ponte da Misarela após uma caminhada de cerca de 1km a partir do miradouro.



Vista cá bem de cima, é impossível não nos perguntarmos como conseguiram os nossos antepassados construir esta ponte medieval sobre o Rio Rabagão.



O arco parece mesmo obra do diabo, daí não ser estranho as muitas e variadas lendas que estão associadas a esta ponte. No entanto, não nos podemos deixar enganar pela apenas aparente fragilidade do arco e da ponte de pedra, ela que é também parte da história por ter presenciado aspectos das Invasões Francesas, uma vez que foi por aqui que o General Soult retirou em 1809.


Passemos, então, a ponte e apreciemos a altura que o seu arco dista do rio, ao mesmo tempo que não esquecemos que o vale fica, também ele, lá bem em baixo.

Pelo Gerês - O Restaurante

Em Brufe, aldeola do concelho de Terras de Bouro que dista uns poucos km em subida desde a barragem de Vilarinho das Furnas (no lugar onde se encontrava a aldeia que ficou submersa para a construção dessa obra), já na Serra Amarela, encontramos um dos locais mais improváveis para acolher um restaurante simultaneamente magnifico no que respeita à sua qualidade gastronómica e à arquitectura do seu edifício.
Debruçado nos socalcos sobre o vale do Rio Homem, e utilizando como materiais o granito, a madeira e o vidro, o Restaurante “O Abocanhadohttp://www.abocanhado.com/ não podia estar melhor integrado na paisagem que o circunda, cortesia dos arquitectos António Portugal e Manuel Maria Reis (curiosamente os mesmos que foram responsáveis pela Casa da Cerca, em Almada, de que tratava post anterior), e interior com mobiliário de Siza Vieira, obra de 2003 que mereceu alguns prémios internacionais de arquitectura.
O que mais deslumbra por aqui é a pacatez da vida das poucas casas da aldeia, também de pedra e granito, e das omnipresentes vaquinhas que seguem pastando junto aos espigueiros e ao sofisticado edifício do O Abocanhado.
O seu menu, como não podia deixar de ser, procura aproveitar também as tradições do lugar, especialmente no que à carne barrosã diz respeito.

Pelo Gerês - Caminhadas

Existem “n” actividades disponíveis para se fazer no Gerês, umas mais radicais e sofisticadas do que outras, mas visita ao Parque não fica completa sem as singelas caminhadas.
A nossa escolha recaiu no Trilho Cidade da Calcedónia, na expectativa de que em próximas visitas se possa ir realizando as demais caminhadas. A experiência, há que confessá-lo, não foi totalmente agradável. Apesar de este ser um dos trilhos oficiais, isto é, constantes do plano da Câmara Municipal de Terras do Bouro, a sua sinalização e condições do terreno não chegam ao limite do aceitável. A caminhada tornou-se, pois, perigosa e, assim, acabamos por ter direito à nossa actividade radical.
Foram cerca de 10km, em 5 horas de subida extenuante e descida que exigia toda a atenção por este trilho pedestre de pequena rota (PR). O grau de dificuldade vinha descrito como moderado mas, vejo agora, outros locais há que o caracterizam como de elevada dificuldade. Tivéssemo-nos documentado melhor previamente e nunca a mamã se veria metida nestas andanças. Mas sobrevivemos todas e valeu bem a pena a jornada.
O início e fim deste trilho circular é realizado em Covide e, para além do contacto privilegiado com a fauna e flora locais, tem com bónus suplementar o alcance do sitio arqueológico denominado “Fraga da Cidade” ou Calcedónia, lá bem no alto, no morro que teve em tempos a função de castro defensivo.

Por aqui o granito domina e, à medida que vamos alcançando o topo do monte, as rochas soltas vão-nos aparecendo com mais e mais frequência, com formas deveras curiosas, um cenário ideal para o desenvolvimento de um daqueles divertidos jogos que puxam à imaginação na escolha do
melhor objecto para se associar àquelas formas rochosas singulares.
Para leigos, nunca é fácil apercebermo-nos de quais as aves que vemos sobrevoar as nossas cabeças, mas por aqui existem diversas espécies como o falcão peregrino, a cotovia, o cuco, melro das rocha e melro-azul e a águia-de-asa-redonda. Diz que também existem por aqui lobos, mas felizmente não nos deparamos com nenhum. O que abunda é, sim, fetos. E torga. Aliás, foi a esta espécie de urze que Adolfo Rocha foi buscar o nome de Torga. Miguel Torga era natural de Trás-os-Montes e, amante da natureza, calcorreou estas paisagens fora. Em sua homenagem, a C.M. de Terras do Bouro designa um conjunto de trilhos pedestres como “na senda de Miguel Torga”.
Voltando ao duro trilho da Calcedónia, este acaba em beleza no Poço Azul, um recanto com um riacho com água fresquinha e, como não podia deixar de ser, clara e límpida, irresistível para se beber numa conchinha feita com as mãos.

Pelo Gerês - Cascatas

Nos 4 dias que passámos no Gerês calhou-nos levar com as 4 estações do ano. Com direito a fim de tarde e noite de dilúvio. Azar? Se atendermos a que seguíamos em pleno Julho, não parece existir dúvidas de que o será. Assim pensámos. Mas… que tal a ideia de numa só deslocação ao único Parque Nacional português conseguirmos ficar ao mesmo tempo com a imagem de como é a sua paisagem no Verão e no Inverno? Foi o que nos tocou, particularmente no que diz respeito às suas cascatas.
Se nos primeiros dias apenas vislumbrámos uns, poucos, fios de água pela Serra do Gerês afora, já no dia seguinte à grande chuvada podia observar-se abundantes quedas de água por todos os cantos.



A diferença entre a água plácida e calma da Portela do Homem no “dia de Verão” e o tormentoso correr da mesma água no “dia de Inverno”, então, era abissal. Indiscutivelmente, a preferência vai para o primeiro dia. A água proveniente do Rio Homem é por aqui distribuída em patamares, cada um formando uma piscina natural, possibilitando que aqueles que se encontram em melhor forma física e desejam alguma privacidade encontrem o seu cantinho de sonho. A água é absolutamente transparente. E fria.



Outra cascata, a do Arado, apesar de na sua cota inferior não produzir a mesma tranquilidade da da Portela do Homem, deslumbra-nos pela sua altura e força da sua água que cai veloz sobre uma pequena piscina natural. Subindo pelo vale acima, dizem (porque não o fizemos), encontraremos mais e mais cascatas e mais e mais locais que nos dão a sensação de estarmos sozinhos num mundo aparte.



Aqui perto fica o Miradouro da Pedra Bela, ponto privilegiado para assistirmos a parte da beleza esmagadora da Serra do Gerês juntamente com uma das várias barragens que por aqui foram criadas, neste caso a da Caniçada, com Rio Caldo e Caldas do Gerês também lá no fundo.

Pelo Gerês

Nestas férias de “Verão” aproveitámos uns dias para visitar o Gerês, do qual apenas retínhamos uma curta passagem de atravessamento Galiza – Braga.
Já sabíamos que 4 dias seriam escassos para um conhecimento mais profundo, daí que a parte da Peneda tenha sido relegada para uma futura visita.

Alguns detalhes geográfico-administrativos:

A Peneda-Gerês é o único Parque Nacional no território de Portugal;
Tem uma área total de cerca de 72 000 hectares;
Abrange os distritos de Viana do Castelo (concelhos de Melgaço, Arcos de Valdevez e Ponte da Barca), Braga (concelho de Terras de Bouro) e Vila Real (concelho de Montalegre), os 2 primeiros no Minho e o último já em Trás-os-Montes;
Engloba as serras do Gerês, Soajo, Amarela e Peneda;

Eis, em seguida, alguns dos pontos altos da jornada:

sexta-feira, agosto 10, 2007

Almada Cerca Lisboa

O melhor de Almada é a vista para Lisboa?



A Casa da Cerca, centro de arte contemporânea e seus jardins, em Almada Velha, acima do Cais do Ginjal, confirma-o.
Mas se assim é, há que admitir que este é o lugar para se estar.
Contemplando Lisboa, é verdade, com as Torres das Amoreiras e o Panteão em destaque na outra margem.
Mas assistindo, também, ao vai e vem dos carros na Ponte, com o seu barulho característico sempre presente como música de fundo.
Aos barcos que atravessam o Tejo.
Aos miúdos que mergulham nas suas águas fazendo por ignorar que uns poucos km mais adiante existem águas do mar mais apropriadas.
Mas para nós, que vemos tudo isto num lugar privilegiado da plateia, cá de cima, tudo é mais do que apropriado.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Férias


Eu de férias, segundo a Ritinha.
O desenho transmite liberdade, leveza e felicidade.
Sentimentos que se esperam sempre mas sobretudo em período de férias.

quinta-feira, julho 05, 2007

E Em Portugal

Aproveitando a boleia, para as 7 maravilhas de Portugal arriscaria Castelo de Óbidos, Convento de Cristo, Mosteiros da Batalha, Alcobaça e Jerónimos, Palácio Nacional da Pena e Torre de Belém.
Bem sei que são um bocadinho previsíveis, principalmente no que toca à inclusão de Conventos e Castelos, mas creio que esta culpa será de quem escolheu as 21 finalistas sem procurar arriscar noutras arquitecturas menos consensuais para o grande público (o Palácio de Mateus, em Vila Real, poderá ser uma excepção mas não tive até à data oportunidade para o conhecer; a Fortaleza de Sagres, remetendo para o imaginário da época que mais marcou o nosso país poderá ser outra excepção mas acho aquele espaço construído tão pavoroso que não me consigo disso abstrair para me dedicar em exclusivo ao dito imaginário e à sua implantação fantástica).
Posto isto, e sem esquecer o quanto me agrada a Torre de Belém e o Palácio da Pena (a escala e estética de ambos faz-nos imaginar que possuímos um brinquedo), de todas as minhas escolhias destaco o Convento de Cristo de Tomar. Certo e sabido que tem a famosíssima janela manuelina, a renovada Charola da Igreja, claustros magníficos e, como se estes não fossem já suficientes, toda uma história ao seu serviço desde a Ordem dos Templários à Ordem de Cristo que aqui tinha a sua sede e que sob a batuta do seu mestre Infante D. Henrique haveria de empreender a nossa epopeia das descobertas. Mas, o que me faz decisivamente optar pelo Convento de Cristo são alguns elementos que estão para além dele mas que dele fazem parte inerente. Desde logo a sua localização, lá no alto espreitando-se Tomar e o Nabão, envolvido pelas muralhas do Castelo e pela Mata dos Sete Montes. Por aqui desenvolve-se um relativamente extenso aqueduto, de cerca de 6km, que com boa vontade (dos poderes públicos) podia ainda hoje continuar a desempenhar as suas originárias funções de abastecimento de água ao Convento de Cristo. O mais surpreendente é que este aqueduto, cuja construção foi iniciada em 1593 no reinado de D. Filipe I, alcança uma monumentalidade que diria quase escondida na zona do vale de Pegões (nome por que também é conhecido o aqueduto), possuindo na totalidade 180 arcos.
Em todo o caso, muito património a descobrir pelo nosso país afora.

Maravilhas No Mundo

Em época de votações para as novas 7 maravilhas do mundo, vou com o rebanho e indico em seguida as minhas escolhas.
Apesar de ter tido oportunidade de conhecer in loco 7 das 21 finalistas – Cristo Redentor, Coliseu de Roma, Torre Eiffel, Hagia Sophia, Kremlin / St Basil, Estátua da Liberdade e Alhambra – só esta última entraria na minha lista final.
Assim, ao Alhambra acrescentaria Angkor, Grande Muralha da China, Machu Picchu, Petra, Pirâmides de Gize e Taj Mahal, cheia de esperança de que em breve as possa vir a conhecer sem ser apenas através do cartão postal.
Curiosamente, pensei que neste Verão iria consegui-lo no que ao Machu Picchu diz respeito. Com viagem de avião já marcada para a vizinha Bolívia (a parte que mais dói no meio disto tudo – as intermináveis horas de voo e os intermináveis euros a voar), mal podia imaginar que 3 meses de antecedência seriam insuficientes para reservar o trilho dos Incas até a uma das mais que prováveis novas 7 maravilhas. Felizmente que esta é apenas uma lista infinitamente ínfima e muitos mais locais fantásticos do nosso globo temos a visitar, muitas das vezes bem pertinho das maravilhas “oficiais”.
Do Alhambra – o único da minha lista de que terei histórias vividas para contar – só tenho um senão: o tempo que fui adiando para o visitar. Bem sei que logo na primeira vez que fui até à sua vizinha Serra Nevada o tentei visitar. Era domingo e as gentes incontáveis que tiveram a mesma ideia obrigaram a uma imediata mudança de planos. Os anos foram passando e a minha pouca confiança em vencer os cerca de 30km de asfalto nevado que separam a montanha do Palácio pareciam constituir razão suficiente para não o visitar. Até que finalmente me enchi de coragem mas, ajudada pelo dia mau que afastava a mana do snowboard, ganhava uma parceira para a viagem. O dia mau representava muita neve e vento na Serra e muita chuva cá em baixo, em Granada e no Alhambra. Condições longe do ideal para um passeio que se quer memorável. O certo é que com chuva ou sem chuva esta cidade amuralhada, iniciada no século XIII, com Palácios que, de outra forma, só vemos nos filmes é de visita obrigatória. Os seus palácios luxuosos, encantadores na sua decoração mourisca preciosa e minuciosa, têm à sua altura os luxuriantes jardins.
Pouco mais se pode pedir do que um dia bem passado no Alhambra, de todas as maravilhas finalistas a que mais próximo se encontra de nós, quer em distância quer em influência.

quarta-feira, julho 04, 2007

Rituais de Luz

Se o reaproveitar dos equipamentos que outrora desempenharam uma função decisiva e insubstituível para a vida de uma cidade se revela de elementar bom senso e respeito pela história, transformando-os, por exemplo, em espaços museológicos, aproveitar ainda esses mesmos locais para aí se apresentar exposições, então, é conseguir quase o pleno no sentido de aliar o antes e o depois, permitindo uma nova vida a maquinarias que a merecem.
Vem isto a propósito da exposição “Rituais de Luz”, de Branislav Mihajlovic, que decorre até ao próximo sábado na Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, parte do Museu da Água que a EPAL nos oferece.
Já tinha tido a oportunidade de conhecer o espaço em si, perto de Santa Apolónia, com acesso, precisamente, pela Calçada dos Barbadinhos, paredes meias com um bloco de apartamentos do arquitecto Manuel Salgado, numa zona da cidade que não prima pela boa conservação dos seus edifícios mas, ao mesmo tempo, uma zona da cidade pitoresca, com vistas fabulosas para o nosso Tejo. Da Estação Elevatória, por entre as suas janelas de vidro rasgadas a toda a altura, o azul do céu cai numa perfeita harmonia no azul do rio, com a companhia da cor do sol que só na nossa cidade, e em particular nesta zona oriental, é possível observar.
Por entre as máquinas a vapor e as caldeiras que funcionaram até 1928 e ocupam esta Estação Elevatória desde 1880, com o objectivo originário de elevar as águas vindas do rio Alviela para o reservatório da Verónica e a Cisterna do Monte, com isso aumentando o volume de água a fornecer à cidade, convivem nesta altura os quadros de Branislav Mihajlovic (http://www.branislavmihajlovic.com/), sérvio radicado em Portugal que, informa o folheto da exposição, se terá também apaixonado pela luz da cidade. Todas as suas obras aqui expostas encontram-se plenamente integradas neste, à partida, pouco ortodoxo espaço para o efeito. Entre algumas obras cândidas figurando bancos de jardim, camas e cadeiras (de hospitais?) surgem outras mais duras, como as que remetem para a Guerra Civil de Espanha ou as que representam rostos expressivos.
Destaque absoluto, no entanto, para “Biblioteca” e “Colunas (Fragmentos)”. O primeiro, conjunto empilhado de livros – mesmo – sobre cujas pinceladas produzem como resultado um jogo estético maravilhoso. O segundo, através da utilização de fragmentos – mesmo – de pedras bem envolvidas na pintura que nos permitem uma visão real das colunas do que imaginamos ser um antigo templo romano.
A não perder.

terça-feira, junho 26, 2007

Fado no Eléctrico

Domingo foi dia de Fado no Eléctrico 28.
O programa, incluído nas Festas de Lisboa, consiste em percorrer de eléctrico o trajecto mais emblemático da cidade ao som da música nacional, interpretada por diversos fadistas (cinco) e dois músicos, que se encontram espalhados pelo transporte.
Enquanto percorremos as colinas e observamos a cidade, somos guiados pelo fado, que alimenta a nossa alma. Assim foi quando se cantou:

No castelo ponho o cotovelo
Em Alfama descanso o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar

À Ribeira encosto a cabeça
A almofada da cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo.

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que os meus olhos vêem, tão pura
Teus seios sãos as colinas, varina
Pregão que me traz à porta ternura

Cidade a ponto-luz bordada
Toalha à beira-mar estendida
Lisboa menina e moça e amada
Cidade amor da minha vida

No Terreiro eu passo por ti
Mas na Graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha sorri
És mulher da rua.

E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que sei inventar
A aguardente de vinho e medronho
Que me faz cantar.

Lisboa do amor deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça e amada
Cidade mulher da minha vida.
Ontem a razão de se cantar o fado, ao contrário do que a música diz,

Há para o sofrimento
Um bom remédio afinal
É cantar e num momento
Ninguém se lembra do mal
Não custa mesmo nada
Tentem fazer como eu
Uma guitarra afinada
Um voz bem timbrada
E tudo esqueceu

refrão:
Quando a tristeza me invade
Canto o fado
Se me atormenta a saudade
Canto o fado
Haja ciúme á vontade
Canto o fado
Por uma esperança perdida
Não passe na vida
Por um mau bocado
Se acaso a sorte o esqueceu
É fazer como eu
Deixe andar cante o fado
Não é que não me interesse
Por quem a dor não resiste
Mas a gente que parece
Que gosta até de andar triste
Tem sempre um ar fatal
A que ninguém o obriga
E nesta vida afinal
Vendo bem nada vale
Mais do que uma cantiga
não era para espantar os males, mas antes para celebrar a alma da cidade.
Viva Lisboa!