quinta-feira, agosto 13, 2009

Blue Lagoon

Quando nos aproximamos é difícil acreditar no cenário que se vislumbra. Tem tanto de irreal como de espectacular.
Falamos da Blue Lagoon, um spa geotermal, que é uma das maiores atracções da Islândia e fica localizado em Grindavik, na Península de Reykjanes, a cerca de 40 km da capital.
A lagoa foi criada por um acidente em 1970, quando a vizinha instalação geotermal Svartsengi começou a descarregar águas ricas em sal, algas e sílica. Essas águas, de um azul inacreditável, ocuparam os campos de lava preta da envolvente. O resultado é um cenário de outro planeta, composto por um spa de água azul esbranquiçada, alimentada pela vizinha instalação geotermal, donde saem nuvens de vapor, ao qual se junta o vapor que resulta da diferença da temperatura da água, que é muito quente, à volta dos 38º C, e a temperatura ambiente, que é sempre inferior.





A isto junta-se ainda um ambiente natural rodeado de lava preta que contrasta fortemente com o azul da água, assim como um equilíbrio arquitectónico de todo o espaço, que para além da lagoa - que tem à sua volta elegantes decks de madeira, uma queda de água quente artificial, que proprorciona massagens revigorante, dois espaços de vapor e uma sauna-, tem uma série de edifícios de apoio, que incluem alojamento, restaurante, clínica, salas de conferências, loja.
Impressionante.





Igualmente relaxante e terapêutico. As águas quentes são ricas em minerais como a sílica, o que faz com que a Blue Lagoon para além da vertente de lazer, tenha reputação terapêutica para pessoas que sofrem de doenças de pele, nomeadamente a psoríase.
E também romântico. Pois é... 75% das mulheres inglesas que visitam a Blue Lagoon consideram que este é o local perfeito para serem pedidas em casamento...
Ainda que não seja económico desfrutar deste espaço, recomenda-se vivamente uma visita à Blue Lagoon. Depois de dias a percorrer o país de lés a lés e antes de nos despedirmos da Islândia é de aproveitar - a Blue Lagoon fica nas proximidade do aeroporto de Keflavik - para retemperar energias e oferecermo-nos esta experiência única e relaxante, que fecha com chave de ouro a viagem.

Landmannalaugar

Landmannalaugar ficará na nossa memória como uma das viagens de carro mais caras de sempre. A história conta-se rapidamente e em poucas palavras. Na Islândia há estradas de montanha, as F-Roads, nas quais somos avisadas por um autocolante no veículo que o seguro exclui-se a qualquer responsabilidade por danos aí existentes, sem dizer que a condução em veículos sem ser 4x4 é proibida nestes locais. Na entrega do carro nos escritórios somos depois informadas de que há uma multa de cerca de 500 Euros para pagar por o carro ter sido apanhado naquelas estradas pelo “rescue team do 112” e ficamos a pensar se no norte bem formado e incorruptível também não haverá fulanos supostamente a trabalhar para o Estado e paralelamente a fazer reports para as companhias privadas de rent a car. O certo é que o pagamento da multa já lá vai (cartão de crédito assim o permite) e a contestação mantém-se a caminho.
Por isso, a pergunta que se impõe: ao menos valeu a pena a multa? SIM.
E um conselho a qualquer viajante na Islândia: não deixe de alugar um veículo 4x4 para ir até Landmannalaugar, sim, para ir ao vale de Kaldidalur (neste ninguém nos apanhou), e para ir a todos os locais remotos que nos aproximam dos cenários mais incríveis e irreais.
Um esclarecimento e uma justificação, porém. As F-Roads por onde andámos eram todas perfeitamente transitáveis pelo nosso Suzuki Swift nesta altura do ano. Acreditamos que com neve e chuva se tornem difíceis e perigosas de conduzir – não era manifestamente o caso, e estradas ditas normais há que se encontram em muito piores condições do que os troços por nós utilizados. Apenas uma experiência lamentável que consideramos abusiva por parte da National Rent a Car.









Voltando a Landmannalaugar, a jornada é demorada, mas o cenário que vai sendo atravessado mantém-nos bem despertos. O preto da terra – terra de lava – com os vulcões, crateras e montanhas nevadas à sua volta não nos prepara para os coloridos que veremos mais à frente. Lagos de um azul idílico, montanhas pintalgadas aqui e ali do branco da neve e do verde da escassa vegetação, mas onde a cor dominante parece ser o arco-íris inteiro, tantas são as cores aqui representadas.









O riolito, um mineral, é o responsável por toda esta paleta de cores.
Do centro de Landmannalaugar, que pouco mais tem do que um apoio ao camping, saem inúmeras possibilidades de trekkings. Inclusive aquele que nos leva até Pórsmork – são cerca de 55 km a percorrer em 4 dias num trek que é considerado um dos melhores do mundo.
Infelizmente não passamos mais do que umas três / quatro horas por aqui, daí que apenas tenhamos caminhado junto aos montes Bláhnúkur e Brennisteinsalda, sem ter subido a este último. Pudemos, no entanto, admirar toda a beleza multicolorida deste cenário que mais parece um quadro tornado obra de arte. Junto às montanhas coloridas encontramos cavalinhos islandeses, pequenos riachos que vão passando entre a lava petrificada, vapores a sair da terra com cheiro a enxofre.
Esta é também uma zona geotermal e para tornar ainda mais apelativo todo este ambiente não faltam sequer umas piscinas naturais com água bem quente, a contrastar com o frio que se fazia sentir cá fora. Escusado será dizer que a Sofia não perdeu a oportunidade de picar o ponto nesta actividade, e ainda mais escusado será dizer que aproveitei a desculpa de ter de lhe segurar as roupinhas e tirar as fotos da praxe para me baldar à banhoca. Mais uma experiência vivida pela metade à conta da sempre presente preguiça (velhice?).



Ásbyrgi

Outro Canyon, outra deslumbrante e inesperada surpresa. Como se já não bastasse o Parque Nacional Jókulsárgljúfur acolher quedas de água poderosíssimas (Dettifoss à cabeça), inacreditáveis formações rochosas de basalto (Hljodaklettar) e infindáveis trilhos para caminhar, também este luxuriante Canyon marca presença, tornando obrigatória uma visita a este Parque Nacional. No entanto, verdadeiramente remoto e com acessos nada simpáticos, não se vêem assim tantos turistas por aqui.
Este Canyon de Ásbyrgi tem várias teorias sobre a sua criação, umas influenciadas pela mitologia norse, outras mais terrenas dos cientistas que defendem que foi após uma erupção de um vulcão donde resultou a inundação do rio JoKulsá á Fjollum que surgiu esta maravilha, em forma de U, de cerca de 3,5 km de extensão por 1 km de largura de vegetação intensa rodeada por um muro natural que chega a atingir 100 metros de altura.



Da estrada a caminho de Ásbyrgi já se consegue perceber a imponência do Canyon e espera-se mais deslumbre quando lá entramos. Mas, mais uma vez, a surpresa marca presença e não se previa, ainda que usando de toda a imaginação, que junto às brutais paredes de rocha do Canyon houvesse um recanto de tranquilidade, cortesia de todo o bom gosto da mãe Natureza, com um laguinho de água transparente. Desta vez não há fotografias que façam justiça ao lugar. Teremos que nos ficar pela saúde das nossas mentes.

Fjarðrárgljúfur

Conhecido como “a garganta da Islândia”, este Canyon perdido no sul da ilha entre o Skaftafell e Landmannalaugar – o que não quer dizer que fique a curta distância quer de um quer de outro – alcança-se através da Laki Road.
Na minha modestíssima opinião este Canyon leva o prémio nada modesto da mais surpreendente paisagem da Islândia (e são tantas!). Talvez por isso mesmo, por ser uma surpresa encontrar-se perto de um campo de lava uma fenda na terra de cerca de 2km de comprimento e uns bons 50 metros de altura nos pontos mais altos, numa combinação do verde mais vivo com o preto mais forte da rocha, sem esquecer a água cristalina lá bem em baixo. É preciso alguma coragem para nos aproximarmos dos penhascos enormes que nos fazem contemplar o Rio Fjadra como se estivéssemos num verdadeiro precipício. Mas vale a pena um passinho mais, assim como valeu a pena percorrermos toda a parte superior do Canyon, nós que tínhamos como objectivo inicial ver só como era a coisa. Se o nome é praticamente impossível de pronunciar e de memorizar, a lembrança da imagem essa ficará para sempre nas nossas mentes, com a feliz ajuda das fotos.

Top 3 Islandês

Curiosamente ou não, os lugares que mais me encantaram na Islândia não vêm em todos os guias ou brochuras com os destinos a não perder. A grande razão é, certamente, o facto de nem sempre serem muito acessíveis. Ou, pelo menos, com um acesso minimamente confortável.

Para Landmannalaugar tem de ser utilizada uma de duas F-roads – uma péssima e outra desaconselhada a veículos que não sejam 4x4. Para além de serem cerca de duas horas de caminho desde o sítio mais vagamente parecido com qualquer coisa como lugar com casas. E pessoas.

Ásbyrgi, no Parque Nacional Jókulsárgljúfur fica no nordeste islandês, quase quase no Círculo Árctico, lá para perto do fim do mundo. Para se lá chegar tem de se ultrapassar um verdadeiro tormento com uma estrada cheia de gravilha com o carro aos saltos e repelões durante cerca de uma hora e meia. Isto na estrada que não é F-Road, a que fica no lado leste do Canyon, porque a outra é exclusiva para os 4x4, o que, tendo visto a “nossa estrada” torna inacreditável que a outra, sendo pior, possa permitir a passagem de qualquer coisa para além de carneiros e elfos.

Resta, então, neste muito pessoal top 3, Fjarðrárgljúfur o único destes locais facilmente acessível, mas nem por isso muito documentado e recomendado. Não sei se isso será uma sorte ou um azar. Para nós, que estávamos fartas de olhar para o mapa dos locais de montanha e do interior da ilha e depararmo-nos invariavelmente com as estúpidas das F-Roads para 4x4, acabou por ser um quase milagre virmos dar aqui, ao paraíso mesmo à mão se semear. E o paraíso é fácil de descobrir – este Canyon de Fjarðrárgljúfur esta mesmo no começo da estrada rumo ao Laki, para não variar outro destino que razões técnicas nos impediram de alcançar.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Icelandic Foss - Quedas de Água

Na Islândia há sempre uma queda de água por perto. De tal forma que muitas delas, a maioria mesmo, ignoradas pelo escaparate turístico local, noutro país, sem a quantidade e diversidade ali presente, teriam potencial para serem uma grande atracção turística.
Um clima marcado por chuva e neve frequente, assim como uma geografia influenciada pela proximidade do Árctico, onde se verifica uma forte presença de glaciares, que com o degelo do Verão dão origem a diversos rios, que associados a uma topografia irregular originam a forte presença destas formações geológicas espectaculares.
Das muitas, sem nenhuma ordem especial, pois todas têm um encanto especial, destacam-se as seguintes:

Dettifoss. No nordeste da ilha, inserida no Parque Nacional Jökulsárgljúfur e situada no rio Jökulsá á Fjöllum, o segundo maior da Islândia e que nasce no glaciar Vatnajökull, encontra-se a maior queda de água da Europa em termos de volume de água (cerca de 200 m3). É brutal a potência ali presente, de tal forma que a um quilómetro de distância consegue-se visualizar o vapor emanado. Tem 44m de altura e 100 m de largura e condensa todo o poder, por vezes assustador, da natureza.


A montante do mesmo rio encontra-se Selfoss. Estas quedas, com 11 m de altura, desenvolvem-se ao longo da parede oeste do canyon do rio Jökulsá á Fjöllum. A longa extensão desta queda é o que a mais caracteriza.


A jusante da Dettifoss o rio passa através de uma garganta apertada até chegar a um forte abismo de 27 m, que originou a Hafragilsfoss. Esta queda tem ao seu redor uma lage de basalto lisa assim como um pedaço de água de um azul inacreditável, resultado da grande concentração de minerais, o que faz com que o seu enquadramento seja espectacular.


Gullfoss, em português queda de ouro. Situada no sudoeste da Islândia, no curso do rio Hvítá, é uma das maiores atracções do país. Esta dupla queda de água tem dois níveis e cai para uma assustadora e abrupta fenda de 32 m. A espectularidade da Gullfoss depende das condições meteorológicas. Dizem que nos dias de sol ao seu redor são criados inúmeros arco-íris e no inverno a água congela, o que cria um cenário único. Não pudemos comprovar, pois quando a visitámos estava um dia feio e chuvoso, talvez por isso não tenha impressionado sobremaneira. É, no entanto, indesmentível a sua espectacularidade.


Skógafoss. Na ponta oeste da povoação Skógar, no sul da Islândia, é uma das mais altas e bonitas quedas de água. Cai de um penhasco, com 60 m, de origem costeira, que depois do recuo da costa ficou a 5 km do mar. Na parte de cima da queda, onde se tem uma vista magnífica, que felizmente não é apenas privilégio das múltiplas aves que a circundam, inicia-se um trekking até Landmannalaugar. No inicio do percurso deparamo-nos com outra queda de efeito belíssimo.


Seljalandsfoss, igualmente no sul, esta queda do rio Seljalandsá cai de um penhasco, de formação costeira, de 60 metros. Pela descrição quase parece uma cópia da Skógafoss mas é bem distintiva em relação a esta, assim como a todas as outras, pois é possível percorrê-la por trás. Com banho incluído, claro. Muito, muito bonita.


Svartifoss. Esta queda localiza-se no Parque Nacional Skafrafell e é altamente distintiva. É composta por múltiplas colunas hexagonais de basalto, que parecem que foram esculpidas de propósito. Mas não. Aqui só há mão da mãe natureza. A sua forma é obtida pela cristalização através do arrefecimento do fluxo de lava. O efeito é único e fabuloso.


Na parte oeste da ilha situam-se as intrincadas quedas de água de Barnafossar. Tal como a Gullfoss, fica ao longo do rio Hvítá.


Ainda que não tão grande nem potente como outras quedas, Godafoss, é muito bonita e tem uma componente histórica importante. Foi aqui que no ano 1000 a Islândia foi declarada como uma nação cristã.

domingo, agosto 09, 2009

Fauna Islandesa

A Islândia é quase sinónimo de natureza, logo, a sua fauna também se inclui nos seus highlights.


A observação das baleias é uma actividade a não perder. No barco somos avisados dos sinais em código que o capitão vai anunciando para as podermos encontrar no mar: meio-dia quando estão em frente da proa, meio-dia e um quarto quando estão à sua direita, um quarto para a uma quando estão à sua esquerda.
Nesta visita ficámos a saber, não sem algum desalento, de que há várias espécies de baleias. Não que esperássemos encontrar a Moby Dick (felizmente não apareceu). Mas esperávamos ver uma baleia a furiosamente emergir das águas escuras do mar, lançando determinadamente as suas barbatanas rumo ao céu enquanto torpedeava um jacto de água das suas entranhas. Tivemos que nos contentar com uma simpática amiga armada em golfinho, ziguezagueando para cima e para baixo, deixando apenas uma pequena barbatana à vista e soltando tímidos repuxos.


Ainda no mar, abundam os puffins (talvez a tradução seja papagaio do mar). São pequenos passarinhos irrequietos com grandes (proporcionalmente) bicos coloridos. Não contámos, mas deve andar lá perto, dizem que conseguem bater as suas asas umas 400 vezes por minuto, voar a cerca de 80km por hora e viver mais de 20 anos.


A nadar junto à lagoa Jokulsárlón, um olhar atento da mana permitiu-nos gritinhos histéricos ao vermos uma deliciosa foquinha com o pescocinho fora de água a pavonear-se por entre os icebergs que se desprenderam do glaciar.


Já fora do mar, ovelhas há-as por todos os lados.



Mas a estrela da companhia acaba por ser o Icelandic Horse, uma raça de cavalos trazida para a Islândia pelos vikings e admirada no mundo inteiro. Aliás, graças à sua exportação ao longo dos anos, hoje há mais cavalinhos desta espécie espalhados pelo mundo no que na própria Islândia. E há-os de diversas cores, mas o mais belo são as suas extensas melenas, quer na cabeça como na cauda. Como se fosse preciso mais esta beleza para enquadrar as já de si belas paisagens da ilha.

terça-feira, agosto 04, 2009

Como Andar Pela Islândia



A melhor forma de conhecer a Islândia, já que os seus encantos não estão, de todo, nas poucas cidades dignas desse título, é alugar um carro e percorrer a ilha de uma forma autónoma, com tempo (9 dias pelo menos), já que os transportes públicos não são uma opção para se chegar aos locais que mais (nos) interessam.
Claro que se vêem viajantes de bicicleta, como o holandês cinquentão que encontrámos pronto para pedalar um desvio de 6 km para lá e mais 6 km para cá de uma estrada em terra batida só para ver uma igrejinha de madeira que o Lonely Planet dizia valer a pena a visita (e valeu).




E claro que também se vêem viajantes (loucos?) a caminhar pelas estradas com a mochilona às costas, sem problemas de a encostar no apoio do parque de estacionamento do início do trilho (mais um) que se propõe executar para lá e para cá, mas desta vez com as costas mais aliviadas. A Islândia é um país seguríssimo (andámos sempre com tudo no carro, incluindo documentos e dinheiro), mas, pois é, ninguém nos contou, nós vimos o rapazinho de mochila às costas a caminho do Krafla e, umas 3 horas depois, quando já estávamos de volta dos nossos passeios, o mesmo rapazinho sem a mochila às costas – estacionada no dito parque – pronto para uma caminhada de mais de 1 hora para assistir ao fenómeno das borbulhinhas do Leirhnjúkur.
Mas, reafirmando, a melhor opção não deixa de ser o carro. E de preferência um jipe 4x4 para chegar a todo o lado e não se estar sujeito às multas do rent a car abusivamente cobradas – dizemos nós, que nos tocou essa fava – por se conduzir em estradas que eles não gostam. Porque a verdade é que tirando a Ring Road, a única “auto-estrada” de uma faixa para cada sentido, e com troços de gravilha, as estradas ainda não são de país mais rico do mundo. O que não se pode criticar, uma vez que as distâncias chegam a ser enormes, ainda que olhando para o mapa o possam não parecer. Mas basta lembrar que há que contornar o fiorde, há que subir para logo descer a montanha, há que evitar o glaciar.



Por outro lado, com o carro e com o dia longo de luz, fica mais fácil estender a jornada e procurar alojamento. O ideal é ir reservando de um dia para o outro, pelo menos. Mas, assim, acaba por não haver surpresas como a que tivemos para os lados de Akureri (a segunda cidade da Islândia) quando não encontrámos alojamento vago numa extensão de uns bons 50 km e fomos ter a um hotel à beira de um lago onde nos foi respondido que já não havia quartos disponíveis, mas que tinham salas de aula caso tivéssemos sacos cama. Sorry? Class Rooms? Sim, com quadro e carteiras e tudo. E inteirinhas só para nós duas. E num outro “hotel” calhou-nos um ginásio inteirinho com cestos de basquete de cada um dos lados, incluindo uma bola, mas incluindo também mais uma solitária mochileira. Apesar de anteriormente ter lido sobre a ideia, já a tinha esquecido. É o seguinte: como as povoações que vão aparecendo fora das poucas cidades têm escassa população (a esmagadora maioria não passa dos 100 habitantes), os miúdos têm de se concentrar em escolas e aí permanecer internos pelo menos durante a semana. Logo, as escolas têm salas de aula e ginásio, sim, mas têm também quartos, salas de estar, cozinhas, piscinas. E se no Inverno o seu uso é exclusivo dos alunos (e professores), no Verão, quando estes vão de férias, as escolas são transformadas em hotéis e aproveitadas para os turistas. Com quartos para os remediados e espaços comuns para os pelintras. A somar às pousadas da juventude que existem espalhadas um pouco por todos os cantos, estes hotéis escola são, assim, uma boa forma de se tentar poupar dinheiro num país caríssimo.


Outra forma de poupar algum dinheiro é comprar umas comidinhas simples e rápidas no supermercado, parar ao almoço para fazer um piquenique e aproveitar a cozinha do hostel para preparar o jantar. Mas esta forma de poupança é quase obrigatória, pois se o jantar para dois num restaurante sai praticamente ao mesmo preço de um quarto duplo, ao almoço pura e simplesmente não se encontram locais para o fazer. No meio do caminho escasseiam os supermercados, normalmente sempre junto a bombas de gasolina, daí que também seja boa ideia ir abastecendo de combustível com frequência para não se correr o risco de ficar parado, literalmente, no meio do nada.



A paisagem da Islândia é variada, mas os desertos abundam. Seja o deserto de mar, junto aos fiordes, seja o verdejante, com os carneiros e cavalos a brincar à vez, seja o de lava, seja o de gelo, seja o de sedimentos – o sandur, palavra islandesa que entrou para o léxico mundial. Será uma terra inóspita no Inverno, nem consigo imaginar tamanha desolação, mas bastante agradável no Verão (que não passa de um Inverno encapotado para nós, portugueses). Há sempre alguma novidade geológica ou paisagística ao virar da curva. Uma igreja a descobrir, sejam as de madeira de séculos passados, seja as de poucas décadas, de arquitectura futurista que jamais se esperariam encontrar perdidas no meio dos fiordes. As montanhas têm cores tão lindas e variadas que é impossível deixar de as admirar ou cansarmo-nos da sua presença. Os glaciares são tantos e tão extensos que se pode viajar um dia inteirinho de carro com aquelas massas de gelo sempre ao nosso lado. As quedas de água sucedem-se, de todas as formas e feitios. Há-as em todos os cantos da Islândia. E assim como não consigo escolher a minha preferida, também não consigo dizer qual das regiões da ilha mais gostei.

Um lamento, apenas: não termos ido ao interior da ilha, aquele que é descrito como o mais aterrador local, por conjugar todos os adjectivos que descrevem o isolamento e a desolação. Não foi por isso que não chegamos até lá, mas antes por falta de condições técnicas, digamos. Com isso deixamos de viver e sentir, certamente, uma experiência apaixonante. Em todos os sentidos, pois há quem diga, e no que toca aos islandeses são a maioria, que este é o local para se encontrar com os elfos e criaturas afins. Uma curiosidade para o fim, muitos islandeses não só afirmam ter visto estes seres como garantem ter mantido com eles relações sexuais. Suspeito bem que esta é a única publicidade enganosa acerca da Islândia.

quarta-feira, julho 29, 2009

Reykjavik

O único momento em que pude ver a noite da Islândia foi à chegada tardia a Reykjavik. E mesmo assim, apenas uma espécie de noite vivida no começo da madrugada.
E os edifícios baixos da capital, de 2 ou 3 pisos, bem que merecem dias soalheiros que realcem o seu colorido para que a paisagem possa ficar mais pitoresca.





Reykjavik está situada à beira do Atlântico Norte e é uma cidade que claramente foi crescendo para e pelo porto, mantendo a linha dos seus edifícios antigos, com as casas de madeira.
Mas se o espaço no mar é dominante, o espaço na cidade não o é menos. Crescendo em comprimento e não em altura, as habitações com os jardins mostram que se preocupam com a qualidade de vida, e os prédios foram deixados para o que se pode chamar de subúrbios, numa série de cidades que foram sendo criadas à volta de Reykjavik e que com ela hoje se confundem. São cerca de 270 mil habitantes (a esmagadora maioria de todos os habitantes da ilha estão aqui concentrados) que vivem numa cidade agradável, sem ser linda de morrer, com parques à medida, uma oferta de restaurantes cosmopolita e, dizem, com uma animação nocturna das mais loucas do mundo. O lago Tjornin marca uma presença forte em toda a cidade, mais evidente ainda quando observado da torre da igreja Hallgrimskirkja.
Desta vez deixámos os museus de lado e apenas dedicámos um dia para caminhar pela cidade. Dá para ficar com uma ideia, mas, óbvio, não dá para dizer que a conhecemos ou, talvez, a entendemos. Aqui fica, no entanto, um possível best of do que não deve ser perdido:


- uma voltinha idílica pelo Lago Tjornin


- caminhar pelo porto, junto ao Atlântico Norte, e parar para observar a original escultura de um barco viking, o Sólfar


- aproveitar um passeio pelo jardim de esculturas na casa estúdio de Ásmundur Sveinsson


- deambular pelo centro descobrindo as casas de madeira, cada uma da sua cor
- olhar para o céu e tentar imaginar que horas serão… ops… 21:00? Hora de jantar no restaurante Fish Market e provar a carne de baleia como entrada.

segunda-feira, julho 20, 2009

O Centro da Terra

Não é fácil imaginar como apenas cerca de 320 mil habitantes, distribuídos por um pedaço de terreno um pouco maior do que o de Portugal Continental, conseguem constituir, sustentar e incrementar uma economia auto-suficiente e autónoma (faz de conta que escrevi isto há uns meses). Mais desafiante ainda para a imaginação: não só o conseguem como ainda fazem do seu país um dos mais ricos e desenvolvidos do mundo. E vivem do quê? Cada vez mais do turismo, mas, essencialmente da pesca, da carne de cordeiro, de um pouco de leite. Quanto a recursos naturais estamos praticamente conversados – tirando magotes de energia hidroeléctrica e geotérmica, que fazem com que os islandeses tenham água quente e aquecimento das suas casas praticamente à borla.
À parte isto, o forte da Islândia são mesmo os seus fenómenos naturais – fiordes, lagos, glaciares, quedas de água de todas as formas e feitios, piscinas naturais com água naturalmente (mais do que bem) aquecida, praias de areia preta, vulcões e suas crateras, lava, sandurs (desertos de sedimentos), montanhas coloridas, géisers, canyons, parques naturais com infindáveis oportunidades de caminhadas. Terei esquecido de alguma coisa neste rol dos fenómenos da natureza que mais encantam? Então acrescento-lhe ainda as baleias, os puffins e os cavalos islandeses, belos de morrer. Só não tivemos direito a aurora boreal, mas isso a culpa é da época do ano.
Apenas umas curiosidades mais. Apesar de geologicamente a Islândia ser parte tanto da placa continental europeia como americana, pertence à Europa, mas não se livra de ter como pedaço de terra mais perto de si a Gronelândia, a 287 km, sendo a Noruega, a 970 km, o mais perto que consegue alcançar do continente europeu. É também com o idioma norueguês, segundo uma portuguesa que encontrámos por lá a trabalhar, que a sua língua é mais parecida, não tendo evoluído muito desde o tempo dos Vikings. Será por isso que não entendemos nada do que falam e escrevem? Mas se por aqui não podemos falar em movimento e juventude, que dizer da ilha de Surtsey, parte do arquipélago das Vestmannaeyjar, uma das mais recentes ilhas do mundo, cortesia de uma série de erupções havidas em 1963? Pois, pura energia e emoção, a reviver em próximos posts.



falei das fumarolas fazendo bolhinhas na terra colorida? mais um fenómeno para acrescentar à lista

Brevíssima Introdução à Viagem ao Centro da Terra



Para a Islândia, projecto antigo, só havia uma solução: reservar parte do mês de Julho, de preferência o seu início para ganhar o maior número de horas de luz em cada um dos dias. Na parte que me toca, objectivo plenamente cumprido. Como sou – e lá me mantive – uma menina bem comportadinha, não cheguei a ver mais do que um leve lusco fusco nos 12 dias que passei na ilha com vista (quase) para o Árctico.
Se a Islândia é reconhecida pelas suas paisagens naturais fantásticas, porquê começar por aqui?
Porque é mesmo esquisito andar-se um dia inteirinho sem se notar que a terra quer anoitecer, que são horas de parar a jornada de carro e ir procurar lugar para dormir. E, então, dormir de dia, por vezes com uma claridade que não se via durante o dia propriamente dito. Sim, o sol da meia-noite existe mesmo.
Quanto ao mais, e cumprindo a tradição nórdica, a Islândia é mesmo um lugar civilizado, onde tudo corre pela certa, descontando, é claro, o facto de o país ter ido à bancarrota há meses. Resultado? Menos turistas islandeses pelas praias algarvias neste Verão. E um singelo comentário: se a moeda deles desvalorizou horrores e a economia veio por aí abaixo, continuando os preços lá bem em cima (do ponto de vista desta portuguesa, é claro), como imaginar o custo de vida anterior? A viagem de avião não é barata, o aluguer de carro é estratosférico (vá que a gasolina está ao mesmo preço de Portugal, mas aí parece que o preço das nossas gasolineiras é que é abusivo), as dormidas em saco de cama nos hostels toleram-se, os piqueniques feitos dias a fio ficam por uma pechincha apenas quando comparados com o que se paga em um (qualquer) restaurante da ilha.
Mas, lá está, é aquela viagem que todos temos (devemos) de fazer. A Viagem ao Centro da Terra, como já Júlio Verne tinha escrito.