terça-feira, julho 29, 2014
Palácio de Verão
Um pouco mais afastado do centro de Pequim, mas ligado por metro, fica o Palácio de Verão.
Não
confundir com o Velho Palácio
de Verão,
destruído
pelas tropas britânicas
e francesas durante a Segunda Guerra do Ópio,
em 1860. Este, porém,
também sofreu
com a dita guerra e foi Cixi, a imperatriz viúva
que governou efectivamente as últimas
décadas da
China imperial, que tomou em mãos
a empreitada de o reconstruir.
A arquitectura que encontramos no Palácio de Verão não
é muito
diferente daquela que já
havíamos
encontrado na Cidade Proibida. É
também
um complexo de templos, jardins, pavilhões,
lagos e pontes.
Mas tal não
quer dizer que não
mereça a pena
a visita. Pelo contrário,
os edifícios são aqui mais
elaborados e encantadores e o enquadramento paisagístico é
imbatível.
O verde luxuriante é uma
presença
constante, assim como o é
o Lago Kunming, no qual não
se deve perder um passeio de barco. Pena que o céu
de Pequim por estes dias (será
que não
é sempre
assim?) não
estivesse claro para admirarmos a paisagem em toda a sua plenitude.
O Palácio
de Verão tomou
como nome original Jardim das Ondas Claras quando no século XVIII o imperador Qianlong aqui
decidiu construir um jardim. Pegando no antigo reservatório da dinastia mongol Yuan
transformou-o no referido Lago Kunming que, a par da Colina da Longevidade,
viriam a ser as duas grandes referências
do monumento. Só mais
tarde seria adoptado o nome de Palácio
de Verão,
quando se tornou retiro da corte imperial.
O complexo ocupa uma área
de 290 hectares e inclui cerca de 3000 edifícios.
Combinava funções
políticas,
administrativas, residenciais, espirituais e recreativas. Hoje, quando o visitamos, tentando fugir à multidão
de parceiros de visita, o que vemos é
um equilíbrio
perfeito entre a obra do homem e a natureza.
Existem várias entradas, mas a que tomámos deixou-nos num pátio junto a um dos templos onde nos deu logo curiosidade de espreitar o que haveria nas suas traseiras. O cenário era parecido com algo que havíamos visto algures no centro de Pequim, os característicos telhados cinzentos ondulados. Aqui, muitas rotas de visita pareciam possíveis e, acaso pretendêssemos embrenharmo-nos pela imensa vegetação do jardim, teríamos entretém para o dia inteiro. Resolvemos seguir junto ao lago, numa espécie de promenade que logo vai ter ao Longo Corredor. Este é belíssimo, jogo de cores perfeito e com motivos decorativos como pinturas que revelam cenas da história da China e mitos populares.
Mas a grande atracção é a Colina da Longevidade e as construções que acolhe, como o Pavilhão da Fragrância Budista e o Templo Budista do Mar da Sabedoria. Estes nomes são qualquer coisa, todo um programa. A subida até lá bem acima vale todo o esforço, não só pelo que vamos descobrindo pelo caminho, como pela paisagem que nos espera.
Outra das atracções
do Palácio de
Verão é o extravagante
Barco de Mármore
construído em
1755 e mandado restaurar por Cixi em 1893 quando o dinheiro já não abundava e estava
destinado para a modernização
das forças de
defesa do país,
nomeadamente naval.
Daqui, o melhor que podemos fazer, em alternativa à longa e demorada caminhada em volta do lago, é atravessá-lo num dos barcos mascarados de dragão para chegar até ao lugar onde existe a pitoresca ponte, também em mármore, que dá para uma ilhota onde está instalado um templo. Infelizmente, por altura da nossa visita, este estava em obras. Nada que aborreça muito, uma vez que o que estava a descoberto foi suficiente para nos encantar.
Templo do Céu
O Templo do Céu,
ou altar do céu,
é outra das
atracções de
Pequim que não
pode ser perdida.
O complexo é composto por diversos salões, corredores e altares. O que mais me seduziu foi o Salão das Preces para as Boas Colheitas, um edifício de três andares, cada um deles simbolizando a humanidade, a terra e o céu. O céu é o mais alto e a terra o mais baixo, reflectindo o conhecimento chinês ancestral segundo o qual o céu é redondo e a terra é quadrada. O mármore e a sua forma transmitem uma elegância sem palavras.
Mandado construir pelo imperador Yongle, tal como a Cidade
Proibida, no princípio
do século XV, é um belo exemplo da
arquitectura Ming, embora posteriormente fosse sendo objecto de várias adaptações e reconstruções, quer ainda
durante a dinastia Ming como posteriormente na Qing.
Este complexo abarca diversos edifícios
e um parque fantástico,
de que os chineses fazem bom uso, seja para praticar exercício físico seja para
conviver. Como não
fomos visitá-lo
de manhã cedo,
não apanhamos
os chinoquinhas a fazer tai-chi, mas apanhámo-los
em animadas sessões de cartas e mah-jong e em amenas cavaqueiras.
O parque é enorme e belíssimo e é abrigo de diversas espécies de árvores. O que mais encantou, sobretudo, foram as cores em exibição, variadas mas todas elas encantadoras, num espaço soberbamente arranjado onde impera a ordem, a harmonia e a beleza.
O parque é enorme e belíssimo e é abrigo de diversas espécies de árvores. O que mais encantou, sobretudo, foram as cores em exibição, variadas mas todas elas encantadoras, num espaço soberbamente arranjado onde impera a ordem, a harmonia e a beleza.
Quanto ao Templo do Céu
em si, este é o
lugar onde os imperadores vinham todos os anos, como filhos do céu, para renovar a
sua dignidade imperial, expiar os pecados do seu povo e pedir boas colheitas.
Para esse efeito, aqui eram levadas a cabo cerimónias
e rituais não
só de preces,
mas também de
sacrifícios.
Este é, pois,
um altar de sacrifícios
onde se faziam cerimónias
de adoração do
céu.
O complexo é composto por diversos salões, corredores e altares. O que mais me seduziu foi o Salão das Preces para as Boas Colheitas, um edifício de três andares, cada um deles simbolizando a humanidade, a terra e o céu. O céu é o mais alto e a terra o mais baixo, reflectindo o conhecimento chinês ancestral segundo o qual o céu é redondo e a terra é quadrada. O mármore e a sua forma transmitem uma elegância sem palavras.
quinta-feira, julho 24, 2014
Cidade Proibida
Antes de mais, quando se fala em visitar Pequim ouve-se "Cidade Proibida" como a sua maior atracção. Mas a maior parte das pessoas não amante da China ou de viagens pergunta-se, "mas o que é que é isso de Cidade Proibida"?
Explicando basicamente, é
o lugar que anteriormente estava fora do centro cidade e que os
imperadores escolheram para habitar, junto das suas concubinas e eunucos. Só eles podiam aqui
entrar, daí a
designação de
Cidade Proibida. Hoje tudo é
diferente e qualquer pessoa, desde que pague cerca de 7 euros, pode e
deve visitar este complexo, filmado pela primeira vez por Bernardo Bertoluci
para o seu oscarizado filme "O último
imperador".
A Cidade Proibida foi mandada construir em 1406 pelo imperador
Ming Yongle, o mesmo que então
decidiu a transferência
da capital de Nanquim para Pequim. Demorou 14 anos a construir, tendo
participado na empreitada mais de um milhão
de trabalhadores chineses, e serviu de palácio
imperial para todos os imperadores das dinastias Ming e Qing, qualquer coisa
como 500 anos de história
dinástica
terminada com o último
imperador, Puyi, em 1912 - precisamente aquele retratado pelo filme de
Bertoluci.
Hoje a sua entrada tem o enorme retrato de Mao Zedong a dar as boas vindas. Esta é a Porta da Paz Celestial que dá para a Praça Tiananmen. A escala aqui é enorme.
Da Praça
Tiananmen já havia
falado em post anterior.
Quanto à
Cidade Proibida, o complexo em forma rectangular reúne cerca de 900
edifícios,
mais jardins, portas, pontes, lagos, templos, até
óperas. São
à volta de
720000 metros quadrados cercados por muros de 10 metros de altura e envolvidos
por um fosso de água
de 52 metros de largura. Uma verdadeira cidade.
No seu desenho é
visível
que houve aqui muito planeamento. A simetria é
evidente e houve uma preocupação
com a geomancia e de se obedecer aos princípios
do yin e yang. Também
a hierarquia que esta cidade pretende simbolizar fica aqui evidente pela
disposição dos
seus edifícios.
Com efeito, os mais importantes encontram-se ao centro, como templos e salões, deixando as
laterais para aqueles mais privados.
Uma das imagens mais fortes da Cidade Proibida são as suas cores.
Propositadamente foi escolhido o amarelo para os telhados dos edifícios, sendo o
amarelo na cultura chinesa a cor reservada aos imperadores, representando o seu
poder e a sua proximidade a Deus. Já
o vermelho que domina nos muros e nos edifícios
representa a prosperidade.
O que vemos hoje aberto ao público
é apenas uma
parte de todo o complexo da Cidade Proibida, talvez nem metade de todo o espaço. Ainda assim,
muitas horas de visita são
aqui consumidas.
Para além
da sua arquitectura, aqui ficam os melhores museus da China, apresentando colecções de porcelana,
jade e outros objectos imperiais. Aliás,
a designação
oficial da Cidade Proibida é
hoje "Museu do Palácio",
o que nos criou alguma confusão
no momento de comprar o bilhete de entrada, pois não desejávamos
ir para o Museu, antes para a Cidade. Fora a confusão criada pela quantidade de gente que
estava nas imediações
da Cidade Proibida na segunda-feira, dia por mim destinado para a visitar, sem
saber que nesse dia está
encerrada. Valeu-me mais uma acusação
de ser "pouco focada" por parte da mana.
Lá voltámos no dia seguinte
para constatar que aquela quantidade de gente não
era, afinal, assim tanta. Até
custa a querer que ainda haja mais chineses. De certeza que eles não estavam lá todos ao pé de nós naquele dia?
Uma das coisas mais irritantes quando se viaja é não poder ver as
coisas com calma, sem confusão
e sem necessidade de nos pormos constantemente em bicos de pés para conseguir
espreitar um buda que seja. Em Pequim foi uma constante: demasiada gente onde
quer que se fosse.
No caso da Cidade Proibida, porém,
se é impossível apreciar bem os
pormenores da sua arquitectura na zona central, tal já é mais possível quando se foge um bocadinho do óbvio, do super turístico. Então, aí podemos apreciar
quase sozinhas os deliciosos pavilhões
e seus pátios.
Na minha memória ficará, acima de tudo, o Palácio da Paz e da Longevidade, situado na parte nordeste da Cidade Proibida. Esta é como se fosse uma autêntica cidade dentro da cidade. O bilhete de entrada para a Cidade Proibida não inclui a entrada neste espaço, daí que tenhamos que comprar um outro bilhete e, talvez por isso, indivíduos é coisa que não abunda por aqui - coisa rara e feliz. À sua entrada somos recebidos pelo painel dos Nove Dragões, destinado a protecção contra os maus espíritos. Aqui viviam as imperatrizes viúvas e as concubinas imperiais. Os pavilhões vão-se sucedendo, bem como os pátios com delicados jardins. Mas o rei da delicadeza é o Pavilhão das Alegres Melodias, a casa da ópera num edifício de três andares.
No entanto, são os enormes salões cerimoniais que dominam a paisagem, ou não ficassem eles no centro. Depois de passarmos a Porta do Meridiano entramos num enorme pátio com vista para a fantástica Porta da Suprema Harmonia, o maior e mais importante edifício da Cidade Proibida. Nas laterais existem diversas salas transformadas em museus. Em seguida é irmos atravessando um a um os salões cerimoniais, junto da confusão, mas a tentação de escapar sempre para as laterais é grande. A noroeste da Cidade Proibida ficam os Palácios Ocidentais e, apesar da estreiteza dos seus caminhos, consegue-se espreitar sem muitos encontrões os seus segredos. O contraste de cores é aqui muito forte e belíssimo.
Outros pormenores em foto,
Para concluir o tópico
Cidade Proibida neste post, dizer que se hoje o monumento é uma unanimidade
como património
da humanidade, para os comunistas o assunto nem sempre foi fácil. Quando Mao
ascendeu ao poder e criou a República
Popular da China em 1949 ficou com um dúvida
existencial - que fazer com toda aquela ostentação
imperial quando o seu pensamento era contra a tradição? Diz-se que foi mais uma vez o
providencial Zhou Enlai a salvar da destruição
este ícone da
China imperial.
Praça Tiananmen
Nesta imensa praça,
percorrida facilmente em meia hora para lá,
dez minutos para o lado e mais meia hora para cá,
fora as constantes filas para as revistas da segurança, fica a uma ponta as duas portas
simbólicas da
sua entrada e na outra a Porta da Paz Celestial, mais conhecida por acolher o
retrato de Mao e ser a entrada da Cidade Proibida. Numa das partes laterais
fica o Museu Nacional e na outra o parlamento e diversos edifícios
governamentais. Aqui o estilo soviético
impera. No meio da Praça,
o Mausoléu de
Mao. Para se chegar aqui, mais revista de segurança.
Interessante constatar que o culto da personalidade ao grande
timoneiro persiste ainda hoje. Ao seu mausoléu
acorrem todos os dias milhares de chineses em excursão, dignando-se esperar ordeiramente na
fila (sério?
deve ser o único
lugar em que fazem fila). Não
quisemos perder este género
de beija mão.
Afinal de contas Mao, tal como nós,
era adepto da natação.
Só por
isso.(linda a história
- verdadeira - de que Mao recebeu Khrushchev
na sua piscina e o russo, como não
sabia nadar, teve de colocar umas braçadeiras.
Foi o Kissinger que me contou). O mais curioso é
que praticamente não
havia estrangeiros (leia-se ocidentais) para confirmar a verruguinha de cera no
queixo de Mao. A visita é
curta e conta-se de uma penada: a fila anda a passo à volta do edifício enorme do
mausoléu mas
flui bem, durando menos de uma hora naquele meio da manhã; à
aproximação
da sua entrada inúmeros
vendedores de raminhos de flores brancas e inúmeros
visitantes compradores das ditas; mais revista de segurança, isqueiros não entram; primeira
sala a visitar sem parar o passo é
onde se depositam as flores no sopé
de uma imensa paisagem de natureza verdejantemente pintada; segue-se a
sala que todos esperam e, ei-lo, placidamente deitado no seu descanso eterno;
vrum, já está.
Quanta ligeireza a falar de um monstro que é igual ou pior do
que os de direita, pensa a mamã.
Pois. Para que não
fiquem dúvidas,
sigo a linha oficial do partido: foram erros, sim, mas a intenção foi boa.
Sigamos. Para a Cidade Proibida.
domingo, maio 25, 2014
O que ver e comer em Pequim
Turisticamente falando, muitos pensam "um dia e meio chega para Pequim". O rebanho vê, usualmente, a Cidade Proibida, o Templo do Céu e o Palácio de Verão. E já está. Segue para outra banda.
Como todos os sítios, é uma pena que assim seja.
Na verdade, a nós, cinco dias inteiros (mais um para a Grande Muralha) deram apenas para uma ideia da capital do terceiro maior país do mundo e o primeiro em população. Vimos aquelas três atracções que são património da Unesco, sim, mas vimos também muitos parques, templos, hutongs, o distrito da arte 798, o parque olímpico, ruas antigas e ruas modernas, arquitectura antiga, arquitectura soviética e arquitectura moderna. Muito mais ficou por ver. Museus, por exemplo, nem uma olhada.
A meio do dia e à noite dedicámo-nos com gosto à gastronomia chinesa, tentando incluir nas nossas escolhas cozinhas de diversas regiões chinesas e da Ásia, no geral.
Report gastronómico no blogue da mana:
Nàjia Xiaoguan (Manchu)
Lost Heaven (Yunnan)
Comida de rua - aqui e aqui
Dadong (Pato à Pequim)
Zuo Lin You She (Pequim)
Hatsune (japonês)
Como todos os sítios, é uma pena que assim seja.
Na verdade, a nós, cinco dias inteiros (mais um para a Grande Muralha) deram apenas para uma ideia da capital do terceiro maior país do mundo e o primeiro em população. Vimos aquelas três atracções que são património da Unesco, sim, mas vimos também muitos parques, templos, hutongs, o distrito da arte 798, o parque olímpico, ruas antigas e ruas modernas, arquitectura antiga, arquitectura soviética e arquitectura moderna. Muito mais ficou por ver. Museus, por exemplo, nem uma olhada.
A meio do dia e à noite dedicámo-nos com gosto à gastronomia chinesa, tentando incluir nas nossas escolhas cozinhas de diversas regiões chinesas e da Ásia, no geral.
Report gastronómico no blogue da mana:
Nàjia Xiaoguan (Manchu)
Lost Heaven (Yunnan)
Comida de rua - aqui e aqui
Dadong (Pato à Pequim)
Zuo Lin You She (Pequim)
Hatsune (japonês)
sexta-feira, maio 23, 2014
在 中国
这复活节我去了北京。
在北京我住一个星期。
北京是中国建都。
首先 我去了 天安门广场。
非常 大。 很多人。我们 得 排队。
然后 我 参观 紫禁城 , 颐和园 和 天坛公园 。我觉得 颐和园 比紫禁城 漂亮。
在北京有很多 游客 。 可是,不很多 西方人 。
我的酒店 得 还可以。可是,附近 王府井。
我吃了烤鸭,火锅 和 糖果 。 非常 好 吃。
吃街 也 很 好。
坐地铁 很 方便 和 很 便宜。 坐 出租车 也很便宜。
我 想 北京是一个安全的城市。
我 寄了一 张 明信片给我妈妈。
因为 我 说的 汉语 说 的 不 好, 所以 这是不容易 理解 中国人。
奇怪的。 我没有看见 北京的天。
Beijing
Beijing é uma das capital históricas da China.
Já havia sido capital antes de Cristo nascer, ou melhor dizendo, era capital quando Buda apareceu na vizinha Índia. Mas depois só o voltou a ser apenas no século X, com os Khitans (mongóis), e assim continuou no século XII, com os Jurchen (manchus), e depois no século XIII, com os Yuan (mongóis), do famoso Kublai Khan. Era a então Dadu, ou a Cambaluc de Marco Polo. Esta rapaziada era toda do nordeste, o pessoal aterrorizador das estepes que levou à construção da Grande Muralha.
Durante os Ming, de etnia han, os "verdadeiros chineses", a capital da China começou por ser Nanquim, mas o imperador Yongle mudou-a para Pequim no princípio do século XV e deu-se ao trabalho de levar a cabo uma quase inteira reconstrução da cidade, incluindo a construção da Cidade Proibida que perdura até aos nossos tempos. Pequim continuou capital com os Qing (manchus) e só voltou a mudar para Nanquim com a República da China (nacionalistas), com muita alternância à mistura, para se estabelecer definitivamente como capital em 1949, com a instauração da República Popular da China (comunistas).
Nos dias de hoje, Beijing mostra-se bem cuidada, limpa, segura. Tirando a banda sonora dos escarros constantes, que consomem de tal forma a atenção dos ouvidos sensíveis que evitam que os ainda mais sensíveis olhos encarem o próprio líquido em si, os habitantes são educados. Isto se concedermos que fazer fila é uma questão cultural e não de educação e civismo.
Tentei treinar o meu medíocre mandarim. Fiquei contente por constatar que o bu yao (não quero) resulta e faz os vendedores dar meia volta. O problema é que tentar falar inglês é, na esmagadora maioria das vezes, ainda pior. Vá que há rapazes inteligentes e, ajudados pela tecnologia, conseguem ir ao google translator e mostrar-nos escrito "closed today" (fechado hoje).
Como não podia deixar de ser, a capital do país que já passou do 1 bilião de habitantes tem só por sua conta 20 milhões deles. Curiosamente, parece haver espaço para todos eles aqui viverem e parece haver ainda mais espaço para que mais deles aqui se instalem no futuro. Se terão um boa vida ou não, isso já é outra história.
Diz-se que o salário médio mensal é de cerca de 700 dólares, mas alugar um apartamento de um quarto no centro da cidade fica mais caro do que isso. A periferia é o destino da maioria (nada muito diferente de Lisboa, há que reconhecer). Mas a rede do metro ajuda a levar a muitos cantos - serão cerca de 200 km de linha (ainda que me pareça que a rede do metro nem sempre esteja bem articulada, pois para se fazer à volta de 2 km por vezes tem de se mudar de linha umas duas vezes). O preço do bilhete do metro em Pequim é de 2 rmb (renminbi, também conhecido por yuan), cerca de 24 cêntimos de euro. Ou seja, os resquícios comunistas estabelecem para o povo preços baixos nos transportes, mas não na habitação. Qual a explicação? Wo bu zhidao (não sei).
Continuando na temática preços, e ainda no que aos transportes diz respeito, é só escolher: metro já se sabe; autocarro, se tiver cartão pré-comprado, é inacreditavelmente ainda mais barato; táxi sai a 1,5 euro para se andar os primeiros 3 km.
Quanto à alimentação fora de casa, na rua pode almoçar-se cogumelos, beringela e galinha por 16 rmb (menos de 2 euros), para duas pessoas, compartilhando uma mesa no meio de uma mercearia do género da da Lurdes em Aldeia das Dez, junto às pastas de dentes, aos boxers e aos pacotes de sopas instantâneas, e pode jantar-se umas entradas e um pato à Pequim num restaurante da moda por 450 rmb (54 euros), também para duas pessoas. Mais uma vez, é tudo uma questão de escolha.
Para a roupa de marca, daquela que se encontra cá como lá, não vale a pena olhar o preço, pois é mais caro. Não devia a Adidas made in China ser aqui mais barata? Volto a wo bu zhidao. Desta vez não destinámos tempo para uma visita aos mercados de falsificações, por isso, desconheço se vale a pena ou não. Adiante.
Facto curioso nesta Pequim multifacetada são as ilhas que comporta. A população que frequenta Sanlitun não é exactamente a mesma da de Wangfujing e as duas são diferentes da da Praça Tiananmen. Na Cidade Proibida juntamo-nos todos.
Passo a explicar.
Sanlitun é o bairro das embaixadas que cresceu em tempos modernos e onde se encontram hoje os arranha-céus do centro financeiro e as lojas das maiores e mais caras marcas mundiais. Nas ruas vêem-se chineses sofisticados e mais estrangeiros, que se topa serem claramente emigrantes e não turistas.
Em Wangfujing, estão também muitas das maiores marcas e o maior centro comercial, ao lado de lojas menores e de mercados populares. Todo o tipo de hotéis está aqui, ou não ficasse a Praça Tiananmen e a Cidade Proibida a menos de 2 km de distância. E nas ruas vêem-se muitos turistas (poucos ocidentais) ao lado de muitos jovens chineses classe média.
Na Praça Tiananmen ficamos com a sensação de que o campo invadiu a cidade. É uma multidão de chineses que em excursão acorre a visitar o Mausoléu de Mao e o Museu de História, mas a ver pelo seu aspecto de rosto curtido pelo sol e calçado estragado, não serão exactamente os mesmo que depois irão dar um saltinho a Wangfujing e, muito menos, a Sanlitun. Quanto a estrangeiros a aventurarem-se na espera da fila para ver Mao, não vi mais do que uma mão cheia deles, duas portuguesas (nós) incluídas.
Por fim, na Cidade Proibida entramos todos juntos e lá nos deixamos encantar todos juntos também.
Ainda numa análise à população de Pequim, é delicioso ver os idosos (leia-se, reformados a partir dos 55 para elas, 60 para eles) a passear com os seus netos nos parques. Esta é também uma realidade de Pequim, uma população a caminhar para idosa, mas já reformada, e outra jovem recém chegada à cidade, mas que nem sempre encontra o emprego desejado ou, pior, não o encontra de todo.
quinta-feira, abril 24, 2014
A Nova China
No império do meio faz ainda mais sentido olhar para o mapa, aquele em que me sinto perdida, tentando encontrar o meu rectângulo à beira mar no centro do dito. Mas ele não está lá. Continua no centro o continente euro-asiático, mas agora com a terra dos han a dominar o centro das atenções, e nós relegados mais para a esquerda, no lugar da América, e esta no lugar da Ásia.
Causa-me sempre alguma confusão quando oiço ou leio opiniões de que a China vai dominar o mundo, tomando o lugar do "ocidente".
Desconhecerão que a sua é uma das mais antigas e grandiosas civilizações? Que apesar da política de se manter isolada do resto do mundo, baseando as suas relações num sistema tributário ao qual estava subjacente o entendimento da sua auto-suficiência, a sua "decadência" não terá durado mais de 100 anos?
Pois, para a memória curta, só nos lembramos dos episódios das guerras do ópio e do retalho do país pelos ocidentais, russos e japoneses na segunda metade do século XIX e princípios do século XX.
Mas que dizer do testemunho de Marco Polo que por lá passou no século XIII e que despertou a curiosidade e encantou o "velho mundo"? Que dizer do fascínio pelas porcelanas Ming, pelas sedas, pelo chá, após Portugal ter ligado comercialmente as duas costas do mesmo continente?
Isto para não ir ainda mais atrás, pois a partir daqui deixou de haver desculpas para o nosso desconhecimento da grandeza de uma outra civilização.
Os orientais, ao contrário dos ocidentais (ler o livro The Geography of Thought - How Asians and Westerners Think Differently...and Why, de Richard Nisbett, para melhor esclarecimento), têm tendência a ver o universo de uma forma cíclica (nós é mais linhas rectas, uma visão que se costuma apodar de linear). A anunciada tomada do governo do mundo pelos chineses em breve (apregoado, entre outros, por Martin Jacques em Quando a China Mandar no Mundo) mais não é do que um retomar do papel da China na história mundial de acordo com com esta visão cíclica, em que se volta sempre ao início da rodinha.
Uma nota mais. São os próprios chineses a admitir que o seu país não é comunista. Duibuqi, também não é capitalista. É um país que segue um projecto próprio, comunismo de rosto capitalista. Ou capitalismo de rosto comunista. As grandes marcas ocidentais, tipo a Nike, estão a fugir de lá porque a mão de obra mais barata deixou de estar aqui. Mas outras grandes marcas ocidentais, tipo a Apple, continuam cá porque sabem que os chineses são bons a trabalhar com tecnologia. Ou seja, os chineses estão a enriquecer, estão a estudar mais, estão a viajar por todo o lado, seja no seu país, na Ásia ou em todo o mundo - a China já é o país que mais contribuí com viajantes para o turismo mundial. Abrem delegações do Instituto Confúcio por todo o mundo - o mandarim está na moda.
Não ignoro os custos deste novo rumo da China, em que todos nos campos parecem querer demandar às cidades e que para cumprir o seu sonho de um futuro melhor que lhes foi prometido terão de trabalhar o dia todo, a semana toda, o ano todo. E isso, também, prova as características especiais deste modelo de China. Nem bom, nem mau. É o que calhou nesta parte do ciclo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


