sexta-feira, abril 21, 2017

Rīga

Riga é a capital da Letónia, fundada por cruzados alemães em 1201, tomada dois séculos depois pelos suecos e mais tarde pelos russos. Na época do domínio sueco foi tão grande como Estocolmo e na época da sua pertença ao império russo só ficava atrás de Moscovo e São Petersburgo em importância. Em 1918 alcançou a sua independência, mas a II Grande Guerra Mundial trouxe novamente a ocupação soviética. 1991 foi o ano da desagregação da União Soviética e, como consequência, da independência que dura até hoje. Mas talvez quase tão importante como esta data foi o ano de 2004, o da entrada da Letónia para a União Europeia.
Uma caminhada por Riga permite-nos confirmar parte desta história: é uma cidade de contrastes, feita de muitas cidades, como uma matrioska em que à medida que vamos retirando as bonecas vamos vendo as suas diversas faces. As faces desta cidade são pelo menos três, a medieval, a moderna e a soviética.





Começando pela cidade velha, distinguida pela Unesco como Património da Humanidade. 
É um núcleo medieval compacto e pequeno. Ruinhas que se cruzam sem critério uniforme, calçada em pedra, muitas torres de igrejas a rasgar o céu. O rio Daugava corre à beira desta área quase exclusivamente pedestre e pelo acesso que permite ao Mar Báltico foi determinante para que Riga tivesse chegado a ser o maior porto de madeira do império russo. Bem antes, ainda, Riga fez parte da Liga Hanseática. 



Esta história de comércio está ligada a um dos maiores símbolos arquitectónicos de Riga, a Melngalvju Mams (a Blackheads House ou a Casa dos Cabeças Pretas). Este edifício, situado na pequena praça da câmara municipal, é uma completa réplica daquele que ali existiu desde 1344 até ser destruído pelas bombas na II Grande Guerra Mundial. Mas o facto de não ser o original e ter sido reconstruído apenas em 2001 (por ocasião dos 800 anos de Riga) não lhe retira qualquer graça: ele ali está imperioso com a sua fachada cor de tijolo a contrastar na perfeição com a cor lazuli do seu belíssimo relógio astronómico. A fachada esta ricamente ornamentada e não lhe falta uma série de santos. Esta era a casa de antigos mercadores alemães solteiros. Conta-se que nesta guilda estes solteirões celebravam grandes festas e que numa delas, numa noite de Natal, por volta do ano de 1510, resolveram enfeitar um pinheiro com flores. A tradição rompeu fronteiras e dura até hoje. 


Na cidade velha de Riga destaque ainda para a Mencendorfa Nams, casa do século XVII pertença de um alemão rico comerciante de vidro. Da sua visita ficamos com a percepção de como era o dia a dia dos mercadores da época, para além de ser um testemunho da arquitectura da época. 


O conjunto de três casinhas conhecido como "Os Três Irmãos" é um dos exemplos mais antigos da arquitectura de Riga. A este propósito, uma outra história que se conta, a de que as janelas bem pequeninas dos últimos pisos seria uma forma de pagar menos taxas por parte dos proprietários, uma vez que em tempos idos as taxas eram pagas em conformidade com o tamanho das janelas. Este postal das três casinhas juntas, cada uma da sua cor, é mimoso. A (rara) parte turística da coisa foi assistir a um trompetista numa das suas portas que à imediata descoberta da nacionalidade do turista irrompia nos acordes do hino correspondente. Foi assim que depois de saber que éramos de Portugal, soltou as palavras Ben@f!@ e Sporting (momento supremo) e desatou a tocar A Portuguesa.




No rol de edifícios a visitar não faltam, claro, as igrejas. Na cidade medieval as igrejas são hoje evangélicas luteranas. A Catedral de Riga é a maior igreja medieval do Báltico, conhecida pelo belo som que sai do seu órgão e pelos seus claustros. 



A Igreja de São Pedro tem cerca de 800 anos, o que faz dela um dos edifícios medievais mais antigos do Báltico. A sua torre gótica é visível de quase qualquer ponto da cidade e do alto dos seus 72 metros alcançamos um panorama privilegiado. 


Daqui de cima conseguimos perceber os contornos da cidade. Vemos como o rio Daugava é marcante e percebemos finalmente o porquê de termos sido acordadas de manhãzinha pelo esganiçar das gaivotas. Gaivotas em terra, tempestade no mar. Não houve tempestade, nem no mar nem fora dele, mas houve frio e tempo encoberto e chuvoso. Não impediu de passear pela cidade, mas impediu certamente de desfrutar das suas cores e dos seus parques. 



E assim se passa para a cidade nova, a Riga Central. A solução encontrada para unir a cidade medieval à cidade moderna foi a da criação de uma longa avenida, o Brivibas Bulvaris, Boulevard da Liberdade, e de um longo corredor verde atravessado por um canal que antes correspondia ao fosso junto à agora desaparecida muralha. Esta zona verde funciona como um tampão de transição. Fosse Riga uma cidade intensa, movimentada e caótica e esta seria uma zona de escape. Assim, é apenas um contínuo do ambiente que se vive em ambas as cidades, velha e nova, um espaço bonito e sereno. Este Boulevard da Liberdade, onde fica o relógio da Torre Lama, é o lugar onde os habitantes da cidade confluem nos grandes momentos. 



Se na Riga medieval dominam as torres góticas, na Riga Central o destaque vai, em absoluto, para a Art Nouveau (que também marca presença, a espaços, na cidade velha). A Art Nouveau foi um estilo com uma vivência curta em todo o mundo e Riga não foi diferente. A Jugendstil ("estilo jovem") durou cerca de 15 anos, entre 1895 e 1910, mas essa foi uma época de pujança económica na cidade. Resultado? Hoje sobrevivem ainda à volta de 700 exemplos um pouco por toda a cidade, com uma predominância imensa ao redor da Alberta Iela. De tal forma que é chamado o "Distrito da Art Nouveau", com um museu em sua homenagem e tudo. Mas a grande exposição está nas ruas e basta ir olhando, para cima, sobretudo, para se nos revelar um mundo pleno de criatividade e imaginação, feito de detalhes e pormenores deliciosos. Mikhail Eisenstein, o pai do cineasta Sergei, foi um dos grandes arquitectos desta Riga maravilhosa e expressiva.



Para além da Art Nouveau, uma caminhada por esta Riga Central dá-nos a conhecer uma cidade moderna e culta, com cafés e lojas de design, a lembrar que este é também um país nórdico. Bem perto do elegante Cinema Splendid, na verdade várias salas de espectáculo, fica a reluzente igreja ortodoxa russa. 


No parque contrário à Esplanade encontramos um mercado das flores. Aqui tanto se ouve falar letão como russo. Esclareça-se: cerca de metade dos habitantes de Riga são de origem russa, daí que a sua influência se faça sentir um pouco por toda a cidade.
Mas é nos subúrbios que o ambiente soviético é mais marcante.



Chegámos, finalmente, à terceira cidade, a soviética. Para lá da linha de comboio o destaque na paisagem vai inteiro para o edifício da Academia das Ciências da Letónia. Podemos não ter estado nunca em Riga, mas já vimos este bolo de aniversário em algum lugar. É a prenda que Staline costumava oferecer às suas cidades, uma daquelas torres imensas, desgarradas de qualquer local onde fosse implantada. Vale a subida ao seu 17.° andar para a melhor vista sobre toda a cidade. E se para um lado olhamos e descobrimos a Riga medieval e moderna, para o outro, bem ali em baixo, vemos claramente uma Riga feita de mais igrejas ortodoxas na paisagem, blocos de prédios, de barracões, com um ar algo desolado até.



Nesta zona da cidade fica o imperdível Mercado Central. É um conjunto de quatro hangares (mais um colocado numa outra disposição) datados de 1920. Aqui tudo se vende, até mesmo aqueles produtos que encontramos nas feiras das nossas aldeias. Mas o mais apelativo são as áreas dos lacticínios e, sobretudo, da peixaria. São tantos os peixes e conservados das mais diversas formas que nos transportam para todo um outro mundo. 



Ao lado do Mercado Central encontra-se em renovação uns armazéns. Spikeri, ocupada com cafés e várias empresas start-ups, é o maior exemplo da gentrificação de Riga. Na outra margem do rio Daugava vamos vendo erguer-se aqui e ali mais uma torre, quase sempre de alguma grande empresa. Riga pode ter dos mais pequenos centros históricos de uma capital europeia, mas alguém está a olhar para ela.

sexta-feira, abril 07, 2017

Duas novas aquisições na paisagem de Lisboa

Lisboa tem desde 2016 dois novos símbolos arquitectónicos, ambos cortesia da eléctrica nacional.
O edifício Sede da EDP e o MAAT vieram ocupar espaços na frente ribeirinha da capital e são já obras incontornáveis e marcantes na nossa paisagem.


Começando pela mais antiga, a Sede da EDP, lugar onde se pretende acolher e juntar os mais de setecentos funcionários da empresa espalhados por vários espaços na cidade.

Está a fazer agora um ano que ficou a descoberto a obra da dupla Aires Mateus. Instalado no aterro da Boavista, entre as ruas D. Luís e a 24 de Julho, numa zona histórica que tem vindo a ganhar uma nova dinâmica, enriquecendo-a, este edifício rompe com a tradição e acrescenta qualidade - antecipo já. 

Dependendo do local onde estejamos na cidade, a visão que teremos sobre este edifício irá mudando. Do Alto de Santa Catarina, no seu miradouro, parece-nos uma massa branca enorme e algo deslocada. Aliás, à medida que a obra se ia desenrolando, daqui foram surgindo críticas ao novo acrescento na silhueta de Lisboa. No entanto, desde cá de baixo, da D. Luís ou da 24 de Julho, não nos chegamos a aperceber da verdadeira dimensão da referida massa branca. Apresentam-se-nos duas torres bem definidas, é certo, mas a sua escala parece bem acomodada ao existente (um dos lotes vizinhos ainda está por ocupar e de futuro também ficará afecto a serviços da EDP).



É aqui que nos apercebemos dos inúmeros detalhes desta obra; e muitos mais nos escapam - por exemplo, não temos muita noção de quantos andares possui este edifício. Um dos aspectos verdadeiramente interessantes neste projecto é o corredor entre as duas torres que liga a Rua D. Luís à Avenida 24 de Julho, criando um pátio ou praça interior. É aqui que se sente que esta não é apenas a sede de uma empresa, fechada sobre si mesma e sobre os seus funcionários, antes aberta à cidade (aqui se prevê a abertura de lojas e restaurantes). E aqui o mérito é do projecto arquitectónico, máxime dos seus autores, em procurarem essa integração que se espera que venha a ser alcançada através da vivência que lhe darão também os habitantes de Lisboa.



A solução arquitectónica usada para cobertura desta praça é única e brilhante, quer a nível estético quer funcional. Uma espécie de cortinas em ripas deixam-nos na dúvida se a praça será mesmo fechada. O jogo de sombras / luz é aqui mais visível e conseguido. Certeiro quem usou as palavras "enigma", "quebra cabeças" e "puzzle" para descrever este projecto. 


Se é fácil de prever que acima de nós, nos pisos superiores, estarão os escritórios, mais difícil de prever é o que encontraremos nos pisos inferiores enterrados. Um jardim (quase) zen, por exemplo. Sereno (por agora?).





Serenidade foi algo que não existiu no dia da abertura ao público do MAAT. 5 de Outubro de 2016, feriado reposto, milhares junto ao Tejo para ver a espécie de nave espacial que aterrou em Lisboa. De tal forma que a ponte pedonal que liga o MAAT ao Museu dos Coches, para lá da linha férrea, teve de ser encerrada.


O MAAT é o mais novo museu de Lisboa e veio fazer companhia ao formosíssimo e quase centenário edifício da Central Tejo, Museu da Electricidade. Os dois juntos formam hoje o Campus Fundação Edp e receberam a nova designação - MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia).

A zona ribeirinha de Belém é rica em história e mantém-se no imaginário português há séculos. Por aqui ficam alguns dos edifícios mais icónicos da capital. Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos, Padrão dos Descobrimentos, CCB, Ponte 25 de Abril e o Cristo Rei de vigia na outra banda. E, agora, mais um: o futurista e ondulante MAAT, mais uma cortesia da EDP, projecto da inglesa Amanda Levete.



O aproveitamento da área onde está implantado e o elemento natural maior que é o rio foram soberbamente manejados. Sem o rio este edifício não seria o mesmo. E sem a luz que ele e Lisboa oferecem também não. A ideia da arquitecta foi a de possibilitar o reflexo da luz do sol e da água no edifício, como se de uma onda se tratasse. Nem seria necessário este jogo, uma vez que a cobertura ondulante é óbvia. 


A dificuldade da implantação do então futuro MAAT era difícil de ultrapassar numa ideia imediata. Temos o rio, lugar privilegiado, mas logo colado a ele temos a linha de comboio e só depois a cidade. Essa barreira foi magistralmente superada. Não pela ponte pedonal que se espera venha a abrir em breve, mas sobretudo pela dita cobertura. Pela belíssima cobertura, melhor dito.



A solução criada foi a de fazer desta cobertura um espaço público, um lugar de encontro entre as pessoas, por onde elas possam caminhar, atravessando o edifício, ou aproveitá-la como miradouro. Sim, este é o mais novo miradouro da cidade e daqui temos uma perspectiva nunca vista da Ajuda. Basta, por uma só vez, virar as costas ao rio.

Depois temos os pormenores na escolha dos materiais. O revestimento do edifício, quase parecendo as escamas de um peixe, é em azulejo e remete para a calçada portuguesa.
Ainda acerca da relação deste edifício com o rio, é curioso como uma estrutura que não é pequena instalada na primeiríssima linha do rio não perturba a leitura do existente na cidade. Aliás, da cidade não é possível obter uma visão deste edifício. Isso só é alcançado do lado do rio. E que bem que este desenho de curvas cativantes aqui fica. 

Voltando ao início, ao dia da abertura do MAAT ao público, se o sucesso de um edifício pode ser medido pela forma como as gentes o vivem, então este é sucesso absoluto.

sexta-feira, março 31, 2017

World Sketching Tour, por Luís Simões

Enquanto a minha ilustradora preferida, Ana Gil, não se digna expor ou publicar em livro os seus desenhos de viagem, vou-me entretendo com Luis Simões e o seu World Sketching Tour.

O plano inicial seria o de percorrer cinco continentes em cinco anos e ir documentando a aventura através do desenho. A viagem serviria de inspiração e o período longo de tempo permitiria uma contemplação e absorção sem pressas, tomando não só consciência de novos lugares, seus detalhes e diversas histórias, como também um aperfeiçoamento da técnica de desenho.

O tour começou em 2012 e se seguisse o dito plano estaria agora a terminar. Mas aventura que se preze não tem plano a seguir e deixa que sejam as circunstâncias a tomar conta de nós. Foi isso que aconteceu ao Luís Simões e, depois de um primeiro ano a viajar pela Europa, acabou por se plantar demoradamente na Ásia, tendo arrancado há pouco tempo para o terceiro continente, a Oceânia.

Voltou agora a Portugal para nos dar conta presencialmente do seu trabalho de desenho. 
Em Fevereiro tivemos oportunidade de ver alguns dos seus desenhos na Casa-Atelier Vieira da Silva, na exposição "Uma Viagem Ilustrada | World Sketching Tour de Luís Simões" (com livro de mesmo nome também lançado há pouco), dos quais deixo aqui alguns exemplos.



 


Situações do dia a dia foram retratadas, rostos expressivos, uma soneca em cima de uma mota, um salto rumo a algures. Há sempre algo a registar e percorrendo o olhar pelos cadernos de Luís Simões relembramos memórias particulares ou até eventos que foram notícia no mundo, como é o caso das manifestações que tiveram lugar em Hong Kong há dois anos, coincidentes com a estada do nosso ilustrador pela cidade, não tendo perdido a oportunidade de o registar (e mostrar na época nas páginas do jornal Público).

Até agora foram cerca de 38 os países percorridos, entre Europa, Ásia e Oceânia, numa jornada que nos tem vindo a contar histórias e nos faz sonhar e que esperamos possa ter continuidade.

sexta-feira, março 24, 2017

David Hockney: 60 anos de Carreira

O pretexto desta viagem a Londres foi a visita à exposição temporária da Tate Britain, patente de 9 de Fevereiro a 29 de Maio, "David Hockney: 60 Years of Work".


David Hockney é considerado o maior artista britânico vivo e o mais reconhecido, com uma elevada reputação quer entre o público quer entre os críticos. Com 80 anos de idade e 60 de carreira artística, a Tate apresenta-nos por estes dias uma enorme retrospectiva da sua obra.

Uma obra plena de versatilidade, dominada à vez pelo uso da pintura, fotografia, vídeo, iPhone e iPad, escrita de ensaios de pendor artístico-filosófico, numa constante reinvenção de Hockney ao longo de todas estas décadas. Didier Ottinger titula o seu texto do catálogo da exposição como "Quando Chaplin dança com Picasso", aludindo à forma como Hockney consegue reconciliar a pintura com a tecnologia e fundir a dita pintura com o cinema. 

Poucos artistas tão completos haverá.


Conhecia algumas obras de David Hockney, em especial as suas pinturas de piscinas e as suas paisagens de Hollywood e do Grand Canyon, quase todas elas através da visualização de imagens impressas em livros. 


Vê-las ao vivo foi, no entanto, surpreendente e um prazer imensurável. Grandes telas que enchem todos os nossos sentidos, "uma orgia de cor", nas palavras de Jorge Calado no seu texto na edição de 11 de Março do Expresso, por parte de "um dos raros artistas que conseguem ser simultaneamente exuberantes e económicos".

Apesar de termos bilhete comprado com antecedência, chegámos cedo e começámos a formar fila antes da abertura da Tate. Às 10:00 em ponto entrámos e numa decisão mais do que acertada passámos directamente para a terceira sala de forma a contornar as muitas pessoas que enchiam desde logo a exposição. Quando no fim aqui voltámos foi impossível arranjar espaço para partilhar estas duas salas, quanto mais tentar uma olhada consentânea para com estas obras. Todavia, todas as restantes onze salas foram vistas à larga e demoradamente.


Foi possível captar e entender as técnicas usadas por Hockney, não apenas nas linhas e curvas das suas piscinas, mas sobretudo nas colagens fotográficas. Pearblossom Hwy é uma das suas obras mais famosas e como nunca a tinha visto ao vivo sempre pensei que fosse uma pintura. Nada mais errado. No princípio dos anos 80 Hockney criou uma nova técnica de colagem de fotografias. Considerando que a fotografia mais não é do que o ponto de vista de um Ciclope paralisado numa fracção de segundo, o que a impede de representar o mundo e a experiência de viver no mundo, Hockney decidiu-se a juntar diversas polaroids, resultando do seu conjunto uma imagem dinâmica que reúne todas elas.
Eis um exemplo com "Gregory Swimming"


David Hockney nasceu no Yorkshire, mas fixou-se na Califórnia nos anos sessenta. Regressou à sua terra natal já neste milénio, para acabar por voltar novamente para a Califórnia. Estas duas regiões são marcantes na sua obra e grandes e intensas pinturas mostram-nos o porquê. A zona dos Wolds, no Yorkshire natal, foi ainda inspiração para uma interessante experiência em vídeo. Através da instalação de uma câmara no exterior de um carro, Hockney realizou o mesmo caminho de estrada por um bosque nas quatro diferentes estações do ano.

A minha maior curiosidade era, porém, ver como David Hockney realizava as suas pinturas em IPad. Pois é. Este é um dos caminhos que tem seguido nos últimos anos. Mais uma nova técnica, mais uma nova surpresa, mais uma demonstração da sua versatilidade. 

No fundo, o percurso de David Hockney reúne coerentemente as suas diversas experiências motivadas pelo desejo de realizar imagens que representem a forma como nós observamos e compreendemos o mundo.

segunda-feira, março 20, 2017

Novas Perspectivas em Bermondsey

Prosseguindo na busca de vistas, que tal este postal de Londres, com a Tower Bridge emoldurando os novos arranha-céus da cidade?


Bermondsey é um bairro a sul do Tâmisa em que muito provavelmente a esmagadora maioria dos turistas não pisam. E, no entanto, este bairro fica bem junto à Tower Bridge, um dos marcos da cidade. Pode ter uma localização central, o edifício da Câmara Municipal de Londres também fica ali perto, mas só a partir deste milénio ganhou a sua primeira (e única) estação de metro. Em contrapartida, a sua estação de comboios foi uma das primeiras da cidade. 

É um daqueles bairros que não se costuma fazer questão de visitar numa primeira viagem, mas que se deve visitar por representar bem a Londres de hoje. Pobre e rico na mesma medida, está na calha como o mais novo destino hipster da cidade. Antigo lugar de cais, armazéns e indústrias, arrasado na II Grande Guerra Mundial, vítima de decadência, hoje condomínios pululam, bem como cafés e restaurantes aconchegantes e lojas com carácter. Mantendo-se fiel às raízes, após uma ala preenchida por oficinas de automóveis, do outro lado do túnel da ponte por onde passam os comboios fica a Maltby Street e o seu mercado de comida de rua aos fins de semana, cujo furor é já comparado ao não muito distante Borough Food Market.


Caminhando pelo bairro é quase impossível não se dar com o The Shard e o seu topo com ar de work in progress.


Mas o mais curioso é a vista dos seus cais. A Tower Bridge fica de um lado, já sabemos desde o princípio deste post. E o que dizer desta vista de uma quase idílica casinha azul que poderia indicar estarmos numa vila banhada por água, não fosse um olhar mais atento descobrir os condomínios upa-upa de Wapping à frente e as distantes torres da Canary Wharf à direita?

sexta-feira, março 17, 2017

A Nova Tate Modern

Em Londres há sempre muito para descobrir, mas por mais que tente nunca consigo deixar de visitar a Tate Modern. Nisso estou como muitos outros, cerca de 5 milhões anualmente, metade deles turistas como eu, o que faz desta uma das maiores atracções turísticas de todo o país.

Sair junto à Catedral de St Paul's e maravilhar-nos com a sua majestade, caminhar em direcção à Ponte Millennium para atravessar o Tâmisa e descobrir os novos arranha-céus da cidade e, por fim, focar o olhar na enorme torre-chaminé do edifício da Tate ali bem na outra margem, este é um programa indispensável.

A Tate Modern é um museu de arte moderna, mas não só. Estudos indicam que uma das principais motivações daqueles que a visitam é o de "encontrar gente". 

E a Tate Modern é também um ícone arquitectónico.


A antiga Estação Eléctrica Bankside, na margem sul do Tâmisa, foi originalmente desenhada pelo arquitecto Giles Gilbert Scott (autor da também eléctrica Battersea e da cabine telefónica vermelhinha, um dos maiores símbolos de Londres). Desenhada nos anos quarenta do século passado, laborou na década de sessenta e encerrou em 1981 - curta vida como eléctrica, portanto. Os anos 90 foram passados a pensar no seu destino até que finalmente desde o ano 2000 podemos apreciar a sua nova face. 

A dupla de arquitectos suíços Herzog & De Meuron foi a criadora de um novo paradigma na reutilização dos espaços industriais, num muito bem conseguido respeito pelo edifício original, e a Tate Modern é, ela própria, o paradigma dos centros de arte como novos espaços culturais, tendo reinventado a forma como todos nós vemos a arte hoje em dia.

A visita à Tate, a exemplo de todos os maiores museus londrinos, é gratuita, com excepção das exposições temporárias. É um corrupio de gente, nem toda ela interessada em arte. Uma doação de 4 libras é nos sugerida e as lojas onde toda a espécie de merchandising se vende estão estrategicamente situadas às entradas e saídas das exposições temporárias. Esta é uma das formas de garantir receitas ao mesmo tempo que se garante a arte para todos. 


Agora, desde Junho de 2016, temos mais um motivo para (voltar) visitar a Tate. 
Aí está a sua tão esperada extensão, também a cargo de Herzog & De Meuron. 
À enorme Turbine Hall (um espaço  de 35 metros de altura e 152 metros comprimento que dá para as mais inimagináveis instalações de arte) e à elegante Boiler House (o edifício da chaminé de quase uma centena de metros de altura) juntou-se agora a piramidal Switch House. Este corpo da antiga estação eléctrica já existia, mas estava inacessível e não pertencia à Tate. Com a sua adaptação a novo espaço expositivo (e educacional, de escritórios, bar, parque de estacionamento, entre outras funções) a área da Tate ganhou quase mais 60% e se o museu já era grande agora é enorme.



A arquitectura da nova Switch House não (me) desilude, embora haja quem a tenha confundido com um silo automóvel. A sua torre em forma de pirâmide, com 64 metros, é formosa e surpreendente. Torre inclinada, fachada de tijolo entrelaçado, criando o efeito de um rendilhado, olhando para aquele bloco altaneiro parece-nos que uma espécie de tecido, quase uma pele, o cobre. O tijolo, claro está, respeita os materiais originais do antigo edifício. Os pequenos cortes na fachada, janelas estreitas, quebram uma certa monotonia e no seu interior apercebemo-nos que contribuem decisivamente para um excelente aproveitamento da luz natural. 



O acesso ao interior deste novo edifício pode ser efectuado pela rua, do lado contrário da entrada original do rio, ou através desta, percorrendo a nova ponte interior que sobrevoa a Turbine Hall e liga os dois edifícios.


Se o antigo edifício, a Boiler House, já possuía um piso onde podíamos apreciar as vistas e ficar face a face com a Catedral St Paul's na outra margem do Tâmisa, a Switch House possui uma vista absolutamente soberba a poucos metros dali. Do alto do terraço do seu 10.º andar alcançamos uma vista (gratuita) completamente desimpedida de Londres, não fosse a poderosa chaminé da Tate estar ali mesmo defronte. Não incomoda nada, claro, e é a parceira perfeita para todos os velhos e novos elementos londrinos. É conferir as fotos.





Chegada ao final deste post, não foi mencionado o nome de qualquer artista.
Está visto que este post é sobre um museu, mas não é sobre arte. Talvez sobre a arquitectura do museu. Mas talvez, mais ainda, seja novamente um post sobre vistas.