terça-feira, julho 05, 2016
segunda-feira, julho 04, 2016
Piodão
O Piodão costuma carregar consigo todos os clichês que se podem imaginar. Desde o "aldeia mais típica de Portugal" ao "aldeia presépio", tudo serve para a adjectivar. Até o Huffington Post se lhe referiu o ano passado como a "adorável aldeia portuguesa que parece saída dos Flinstones".
Não estamos na idade da pedra, mas é uma pedra / rocha que faz a fama da aldeia do Piodão.
O xisto é o rei por estas terras e o Piodão é apenas o lugar onde ele está mais concentrado como material utilizado para os edifícios - casas, sim, mas também pontes, degraus e caminhos.
Pese embora os clichês, é uma realidade a delícia que é confundirmos desde longe o casario instalado numa parede do vale, como se de socalcos se tratasse, mais parecendo casinhas de brincar, e irmo-nos aproximando e distinguindo cada vez melhor esse casario da terra onde está instalado.
As portas e janelas carregadas de tinta azul viva ajudam a quebrar a monotonia monocromática deste pedaço da Serra do Açor. Com efeito, desde a integração do Piodão no projecto das Aldeias Históricas de Portugal, todas as casas em cimento e telhados de telha têm vindo progressivamente a ser convertidas em casas de paredes de xisto e telhados de lousa, no sentido de recuperarem os materiais tradicionalmente utilizados na região.
Resultado? As casas agora bem restauradas e conservadas são um mimo.
Apenas a igreja alvíssima destoa da paisagem, ainda que no bom sentido, adornando-a ainda mais.
Diz-se que foi mandada construir por um padre vindo do Alentejo, tendo aqui replicado as cores brancas da sua terra.
(no mau sentido, ou pelo menos num sentido estranho, as antenas brancas da Meo e da Nós marcam também hoje a paisagem de uma forma intensa)
As pequenas ruas da aldeia não são fáceis de percorrer, quer pelo seu piso sinuoso quer pelo seu declive acentuado. Todavia, tal só lhe confere ainda mais carácter e valoriza a experiência de se percorrer um povoado característico.
O Piodão foi desde sempre uma região muito isolada. Diz-se que os criminosos fugiam para lá e que sentiam estar no "pior do mundo" - o "piodam" entretanto transformado com o tempo em Piodão. Historicamente não se sabe com certeza quando começou a sua habitação. Como havia já referido a propósito de um post sobre Aldeia das Dez (a cuja freguesia o Piodão chegou a pertencer), um recenseamento joanino de 1527 informava ter o Piodão nessa época dois habitantes. Talvez pastores de rebanhos. Ou certamente dedicados à agricultura. Estas duas actividades são ainda nos nossos dias as predominantes entre os habitantes da aldeia, sendo visível o cultivo de algumas (poucas) terras na sua envolvente.
Hoje parte do concelho de Arganil, o Piodão é a zona mais turística da região. Pequena como é, não é fácil dividir o espaço com os outros enquanto caminhamos pelas suas ruas estreitas e num dia de calor deve mesmo ser impossível compartilhar a sua praia fluvial com os magotes de visitantes. Impossível, igualmente, evitar as muitas bancas com artesanato e produtos gastronómicos locais.
O isolamento acabou.
sexta-feira, julho 01, 2016
Avô
Avô, tal como Aldeia das Dez, é uma freguesia do concelho de Oliveira do Hospital. E como Aldeia das Dez, também, tem um topónimo curioso. A palavra "avô" derivou aqui da palavra "vau", cujo significado é baixio, lugar do rio onde se pode passar a pé. E era precisamente isso que se conseguia fazer em tempos remotos nesta que costuma ser considerada "uma das aldeias mais bonitas de Portugal". A Ribeira de Pomares (rio Moura) possuía um caudal fraco e era por ela que se entrava na povoação. Esta ribeira junta-se ao rio Alva e os dois formam uma deliciosa praia fluvial que mais parece um lago. Melhor. A sua união deixou que se formasse uma ilha no meio, a ilha do Picoto.
Era para aqui que vínhamos dar um mergulho no rio quando éramos pequeninas e os pais estavam connosco na Beira. A mãe até hoje não se cansa de lembrar que foi ali, naquele género de areia à beira do rio, que tirou a fotografia em que estamos enroladinhas na toalha. A água era fria, mas isso nunca fez diferença. Como é mais distante do que a Ponte das Três Entradas desde Aldeia das Dez, para Avô vínhamos também sobretudo aos fins-de-semana com os primos. Olhando hoje o minúsculo ringue que fica na ilha até custa a acreditar que algum adulto lá pudesse jogar à bola, mas é disso que me lembro. Disso e de se comer os meus detestados peixes do rio. Nisso continua tudo igual.
Avô é, pois, o rio e, claro, a sua ponte. A ponte é muito alta mas pouco comprida. Ainda recordo os rapazes a saltar lá de cima, o que parece impossível hoje, tão juntas estão as pedras lá no fundo da água claríssima.
A entrada em Avô para quem vem das Vendas de Galizes tem início uns quilómetros antes de se chegar efectivamente à povoação. Antes de começarmos a descer, há que parar nas Varandas e perceber Avô e toda a sua envolvente. Aqui deparamo-nos com os primeiros dos muitos versos que iremos ler em toda a vizinhança. Avô é terra de poetas e um dos seus maiores, Doutor Vasco Campos, partilha connosco:
"D'estas varandas se alcança
A Serra montes a fio...
E lá no fundo Avô,
Velhinha sempre criança
A espelhar o seu brio
Nas águas mansas de um rio
Onde o meu sonho ficou."
Avô é a sua ponte, o seu castelo e a sua igreja.
Já tínhamos pensado nisso, mas outro poeta, já não nosso contemporâneo, Brás Garcia Mascarenhas, confirma-nos:
"Os bosques, em que está, vê deleitosos
A ceres loura, e a flora jardineira;
Vê nascer entre os rios caudalosos
Nobre vila em península guerreira,
Que com três edifícios sumptuosos,
Ponte, castelo, igreja. Honrando a beira
Enobrece Diniz, segundo brigo,
Novo restaurador do reino antigo."
A história de Avô é remota e teve início antes mesmo dos romanos aí se estabelecerem e aí fazerem passar a Via Imperial. Os romanos, esses, terão sido atraídos pelo ouro e chumbo que existiam nas margens do rio Alva. No século VIII vieram os muçulmanos e no século XI os cristãos. Avô foi couto de D. Afonso Henriques antes mesmo da criação do Reino de Portugal e sobre umas ruínas romanas o nosso primeiro rei aqui mandou edificar o castelo de que hoje sobram ruínas e uma muito bem perceptível muralha. Altaneiro, daqui se obtém uma vista bem bonita para o verde da paisagem e os telhados ocres do casario.
O caminho até ao castelo faz-se subindo por ruas estreitas e cheias de cotovelos que não escondem o traçado medieval da povoação. O edificado está não só bem conservado como bem cuidado. Esta também é uma aldeia das flores.
De volta à parte baixa de Avô, deparamo-nos com os antigos Paços do Concelho. Praça bonita, uma vez mais bem cuidada, lembra-nos que Avô foi sede de concelho até ao século XIX, quando passou a estar integrada no concelho de Oliveira do Hospital.
Restam algumas capelas antigas pitorescas por Avô. Para além da Capela de São Miguel, à entrada do Castelo, destaque para a Capela de Santa Quitéria, um pouco escondida à entrada da ponte sobre o Alva. Do outro lado da estrada fica a igreja matriz de Avô datada do século XVI, embora tenha sido posteriormente reedificada, e à qual foi construída no lugar em que D. Afonso Henriques havia fundado uma igreja.
História, beleza e lazer, é o que Avô nos tem para oferecer.
terça-feira, junho 28, 2016
Aldeia das Dez - Ponte das Três Entradas - São Sebastião da Feira
Este é um percurso pedestre que se faz em cerca de 3 horas.
Saímos de Aldeia pelo caminho que tantas décadas antes percorremos, seguindo por baixo do Soito Marinho, lado a lado com a casa do vale dos primos (o percurso sugerido pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital é no sentido contrário, com início por cima do Soito Marinho, pelas casas novas dos holandeses, mas fazendo jus ao cognome de "Aldeia das Flores" a placa a indicar o percurso pedestre por aqui está totalmente encoberta pelas ditas flores).
Desta vez não íamos com destino à Ponte carregadas nem de lençóis para lavar nem da geleira para um piquenique depois de um mergulho no rio; nem parámos a meio para dizer olá à tia enquanto cuidava das cabras no Vale Pascoal.
Não. Hoje estes caminhos já são pouco usados e isso vê-se pelo terreno não totalmente desprovido de silvas e demais vegetação.
Mas, como sempre, a caminhada até à Ponte é agradável, apesar de os últimos metros serem percorridos por estrada.
A pequena povoação da Ponte das Três Entradas não é mais do que um lugar. Mas dada a sua localização central - e o facto de ser parte de três freguesias (Aldeia das Dez, São Sebastião da Feira e Santa Ovaia) - aqui encontramos a escola para onde todos os alunos das redondezas vêm, bem como restaurantes, um hotel acabadinho de estrear (em substituição do velhinho Italva) e um parque de campismo.
A praia fluvial é a maior atracção da Ponte. Pudera. As suas águas são lindas.
E a Ponte, obviamente. A sua arquitectura é original, três arcos, três entradas, duas delas mais perceptíveis, a deixar caminhar sob si os rios Alva e Alvoco, afluentes do Mondego.
Alva
Alvoco
Alva + Alvoco = ALVA
Das traseiras do hotel e sempre junto ao rio Alva é menos de meia-hora de feliz caminhada até São Sebastião da Feira. Outra praia fluvial, desta vez com uma distinta nora como coadjuvante no engrandecimento da paisagem.
De volta à Ponte das Três Entradas subimos até Aldeia por outro caminho, mais distante, aquele que segue em direcção a Avô, avista-a e vira-lhe as costas para abraçar a antiga calçada romana. Desde aqui, é sempre a subir até chegarmos às ditas casas dos holandeses e começarmos a sentir a nossa Aldeia das Dez.
sábado, junho 25, 2016
Vale de Maceira
Perto de Aldeia das Dez, e parte da sua freguesia, fica o lugar de Vale de Maceira com o seu Santuário de Nossa Senhora das Preces. Este é um lugar surpreendente pelo que de bonito, interessante e bucólico pode condensar num espaço tão pequeno.
Diz-se que no século XIV Nossa Senhora das Preces terá aparecido a uns jovens no Monte do Colcurinho, não muito distante daqui, e desde aí o culto foi em crescendo e o monte tornou-se local de peregrinação. Aqui foi erguida a Capela de Nossa Senhora das Necessidades, a 1242 metros de altitude, num local ermo mas donde se abarca uma paisagem esmagadora de todas as serras à volta, incluindo a do Açor, está claro, mas também a da Estrela.
(O Colcurinho é um lugar imperdível. Poucas vezes se pode obter a sensação de se tocar no céu e ser companheiro de brincadeira das estrelas como estando no alto do Colcurinho. Há muito anos que não vou lá. As memórias impedem-me. Ok, tem a paisagem. Mas só me consigo lembrar do frio e da estrada de susto que temos de ultrapassar para lá chegar.)
Voltando ao Vale de Maceira e ao seu Santuário, o espaço de peregrinação foi para aqui transferido, uns 600 metros de altitude abaixo e pouco mais de 10 kms de distância, não se sabe muito bem quando. Talvez no século XVIII.
Envolvido pela intensa vegetação, depois de passarmos as poucas habitações do Vale de Maceira, entramos no Santuário e temos ao nosso dispor a igreja de Nossa Senhora das Preces, a maior capela. Seguem-se nas proximidades mais 12 capelas e uma 13.ª, a Capela de Santa Eufémia, mais distante e já a caminho do Piodão. Todas elas representam episódios da vida de Cristo numa caminhada aprazível para nós (as capelas foram restauradas há pouco tempo, não sem alguma polémica no que respeita à autoria dos trabalhos de restauro). Mais distante ainda fica a anteriormente referida Capela de Nossa Senhora das Necessidades, no alto do Monte do Colcurinho (a qual não é mais a original, tendo sido reconstruída diversas vezes, a última das quais não há muito tempo em consequência da sua destruição pelo fogo).
Ao redor da igreja de Vale de Maceira temos mais para nos deliciar para além das questões da fé. A vegetação e o arvoredo são esmagadores. Na pequena mata abaixo da igreja podemos apreciar uma pequena maravilha da botânica num espaço absolutamente recolhido e acolhedor. Diz-se que serão cerca de 38 as espécies botânicas passíveis de ser encontradas por aqui, para além de pequenos lagos e uma gruta em granito.
Cá em cima, junto à igreja, destaca-se o edifício da Albergaria (com possibilidade de acolher alguns peregrinos na dormida) e um belo coreto, para além de mais um lago com repuxo e um chafariz monumental.
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