sexta-feira, agosto 05, 2016

Villa de Leyva

Villa de Leyva fica a mais de três horas e meia de autocarro desde Bogotá. O tempo de viagem até Tunja divide-se mais ou menos assim: uma hora para nos livrarmos do trânsito da capital, meia-hora a esperar que o autocarro encha e duas horas de viagem. O dito do autocarro "sai quando sai" não é, pois, eufemismo nestes lados. Depois de Tunja é só apanhar um dos mini colectivos que saem com frequência para mais 45 minutos de viagem até ao destino desejado: Villa de Leyva.

Com tanto tempo de viagem, não espanta que a tenhamos feito em grande parte já sem a luz do dia, sem que pudéssemos à chegada confirmar as palavras do escritor Juan Gabriel Vasquez acerca da "cor escura e rugosa e áspera como o deserto de Villa de Leyva".

Nunca é boa ideia idealizar-se muito um postal que nos aprestamos a visitar. A praça central de Villa de Leyva vem referida como umas das maiores da América do Sul e não pude evitar colocar um livro na mochila só para ter o prazer de me sentar e o abrir numa das esplanadas da praça e deixar-me ficar ali a sentir a sua enormidade.




Não podia, assim, ser maior a desilusão por encontrar a Plaza Mayor de Villa de Leyva ocupada com barracas de vendas de chapéus, ponchos, cuecas, shampoos e doces, lado a lado com palcos, carrosséis, molas de pular rumo ao céu e casas de banho móveis à frente da igreja, numa miscelânea de festa de aldeia com comemoração em honra da Virgem del Carmen.

Com o passar dos (três) dias fomos vendo a praça esvaziar, mas não totalmente que pudesse cumprir o imaginado.



E o imaginado é a vastidão e o vazio transformados em perfeição graças a um chão de pedras enormes, uma igreja num dos topos, edifícios com arcadas e com balcões a ladearem-na, tudo numa cor branca, tão branca que provoca o contraste perfeito com a paisagem, por vezes verde, por vezes "escura e rugosa", como escreveu o citado autor colombiano.

Cidade colonial fundada em 1572 e extremamente bem preservada, encontramos nela ainda alguns edifícios que fazem jus ao título, bem conservados e com os seus pátios adaptados a restaurantes e lojas de artesanato. A não perder: provar os saborosos chocolates caseiros de uma das lojinhas da Villa.




O sentido de passado e autenticidade são presenças marcantes e neste ambiente tranquilo o melhor que se há a fazer por aqui é deambular pelas ruas (ainda que o seu empedrado não seja das coisas mais confortáveis para se caminhar). As casas são brancas, bem como os muros, e os telhados de telha vermelha. Os balcões e as janelas pintadas de verde são também actores principais. Como coadjuvantes, encontramos ainda o cuidado que é colocado na decoração das flores, sobretudo buganvílias e gerânios, o que torna o cenário ainda mais mimoso.







As praças de Villa de Leyva são recantos ainda mais recolhidos, lugares onde a placidez é a palavra de ordem.




Um excelente miradouro deste povoado branco e vermelho que é um destino de fim-de-semana recorrente para os habitantes de Bogotá obtém-se desde o cerro onde está instalada uma pequena estátua, branca, pois claro, de Jesus de braços abertos para a cidade. A subida não é fácil, até porque estamos a mais de 2000 metros de altitude, mas a recompensa é a percepção exacta da implantação desta singular cidade num vale montanhoso.



(Em Villa de Leyva visitámos ainda os Pozos Azules, mas o lugar e experiência são tão esquecíveis que fica o aviso: não vale a pena perder tempo; melhor seria ter-me juntado ao carrossel da Plaza Mayor)

quinta-feira, agosto 04, 2016

Villa de Leyva e Barichara


Duas das mais bonitas cidades coloniais das Américas e, em especial, da Colômbia, ficam a norte de Bogotá, quase que perdidas no meio do nada mas em terras que os espanhóis acreditaram e desejaram ser o El Dorado, abundância de ouro e esmeraldas, mito que ficou por cumprir.
Villa de Leyva, no estado de Boyacá, terra dos Muiscas, e Barichara, ainda mais a norte, no estado de Santander, terra dos Guanes, foram das primeiras cidades coloniais fundadas pelos espanhóis em território colombiano. E são dois exemplos lindos e perfeitos de cidades em que uma visita pode fazer-nos voltar no tempo ou, pelo menos, desejar que este possa parar.


quarta-feira, agosto 03, 2016

Colômbia


Durante anos pensámos visitar a Colômbia.
Histórias reais de violência, quer de paramilitares quer de narcotraficantes, mantiveram-nos afastadas.
A situação está hoje melhor, infinitamente melhor, e, coincidência, na véspera da nossa viagem pudemos assistir via televisão às lágrimas de alegria dos colombianos pelo acordo de paz alcançado com as FARC. 
A Colômbia tem uma população jovem e vibrante e é o país que mais cresce em toda a América do Sul.
Nada nos preparava, no entanto, para a simpatia das suas gentes.
Se à chegada ao aeroporto de El Dorado, em Bogotá, enquanto aguardávamos pela bagagem íamos vendo desfilar os polícias armados de cães, íamos, ao mesmo tempo, observando para lá do vidro a euforia dos familiares e amigos que pulavam e gritavam, empunhando cartazes de boas vindas e balões com as cores da bandeira colombiana. Que recepção.
A simpatia continuaria ao longo da viagem, mas agora especialmente dirigida a nós. Os "com mucho gusto" e "que les vaya bien" foram uma constante. Não estranha, pois, que se possa encontrar escrito numa parede de um qualquer edifício de San Gil algo como "um bom dia para ti que estás a ler isto sem querer".

sexta-feira, julho 15, 2016

Colômbia em livros, filmes e canções

A preparação de uma viagem já é em si uma verdadeira viagem. 
E uma daquelas viagens bem diversas, instrutivas e prazerosas.
A maior parte das vezes o caminho inicia-se com um guia da Lonely Planet.
Com o planeamento da visita à Colômbia não foi diferente.
Início e fim na sua capital, Bogota, e eis que o Andes Sem Parar voltará, enfim, aos Andes que lhe dá nome.
Depois é só traçar um itinerário, a descobrir em futuros posts aqui neste blogue.
Parte essencial da viagem são as leituras dos escritores do país que se pretende visitar. No caso da Colômbia a coisa está facilitada: alguém há nesse mundo que nunca tenha lido um só livro que seja de Gabriel Garcia Marquez? O meu eleito é O Amor em Tempos de Cólera. 
Mas muito mais há para descobrir nos seus autores, ainda que a recente história de luta de cartéis da droga e guerrilha urbana seja um tema quase comum e transversal nas obras dos últimos anos. Algumas sugestões são Hector Abad Faciolince (Somos o Esquecimento do que Seremos), Juan Gabriel Vasquez (O Barulho das Coisas Ao Cair) e o essencial Delírio, de Laura Restrepo.



Quanto a cinema, a ideia que fica é a de que o realismo mágico não está presente apenas na literatura. O filme a Estratégia do Caracol (1993) é um bom exemplo da imaginação sem limites dos colombianos. Depois temos uma vez mais a presença do negócio da droga no filme Maria Cheia de Graça (2004). E para algo totalmente diferente O Abraço da Serpente (2015), retrato das relações do homem branco cientista com um xaman de uma tribo da Amazônia profunda.
E fica a faltar a música para embalar a viagem. Eis uma playlist com os incontornáveis Shakira e Juanes, sim, mas com notas bem para além deles.

sexta-feira, julho 08, 2016

Piodão - Foz de Égua - Piodão

Este percurso circular tem cerca de 7 km. 


Bem sinalizado no Piodão através de placas, subimos até ao cemitério para iniciar o percurso que nos levará a Foz de Égua. O caminho é fácil fisicamente e gratificante visualmente. Rapidamente nos sentimos esmagadas pela paisagem da Serra do Açor, montes com vegetação a envolverem-nos no vale. 




Do lado contrário onde seguimos caminho - e aquele por onde retornaremos - vamos vendo desfilar pela encosta uma série de casas em xisto abandonadas. Perguntamo-nos se alguém alguma vez terá vivido naquele isolamento ainda maior, ou se apenas foram em tempos casas de arrumos de material ou de animais. 




Os socalcos marcam presença e observando bem conseguimos destrinçar neles casas em fila. 
Lá bem em baixo segue o rio.









Apesar da alegre caminhada, saudamos a chegada ao lugar de Foz de Égua. Uma vez mais, casas em xisto debruçadas na paisagem. E uma praia fluvial para refrescar. Sobre as ribeiras do Piodão e de Chãs de Égua temos uma ponte de madeira em U que balança sem parar e parece poder ceder a qualquer momento. Não me aventuro a atravessá-la e faz-me impressão só de ver tremelicar nos ares quem o faz. 
O momento kitsch do passeio acontece num plano mais elevado na paisagem, onde foram construídas umas indescritíveis capelas.







Adiante que é hora de regressar.



Seguindo pela outra margem do rio, o percurso é menos frequentado e menos fácil. Mas só o seu início, pois há que subir a bom subir por terreno pedregoso e algo instável. Depois de seguir um pouco pelo asfalto voltamos ao caminho e ficamos com os socalcos mesmo à mão de semear. Ainda se vêem pessoas a trabalhar a terra. Grande parte do caminho é percorrido junto a uma levada e em todo o percurso o som da água é uma companhia constante e amiga, embora mais profunda nesta parte. 



Passamos mais uma pequena ponte com um fiozinho de água a correr nas paredes que lhe protegem as costas e logo começamos a sentir o anfiteatro do Piodão mesmo à nossa frente. Deve haver poucos lugares melhores do que este para se ficar face a face com o maior conjunto de casas de xisto e telhado de lousa. Ainda para mais, pronto a ser contemplado em plena solitude, como manda a tradição.